"O preconceito é muito forte aqui e afeta as nossas vidas. Eu tenho sofrido diariamente e tem me causado problemas mentais graves de ansiedade e depressão", conta Anastacia Nascimento, agente de viagens há mais de 16 anos em Orlando, que vem sendo ameaçada e hostilizada por vizinhos do condomínio onde mora.
Há dois anos, a agente descobriu superfaturamento em parte das contas do condomínio e denunciou. Desde então, segundo ela, a situação passou de uma simples discussão entre vizinhos para ameaças sérias e constantes que se enquadram como racismo e xenofobia.
"Descobri que eles estavam superfaturando a parte da jardinagem e o marido da mulher que iniciou as agressões racistas era o jardineiro que recebia o dinheiro. A esposa era a síndica e contratou o marido, passando para $100 mil dólares a jardinagem anual. Quando eu descobri que estava sendo nepotismo e superfaturação, eu denunciei e pedi a remoção deles do cargo", explicou em entrevista ao Gazeta News.
Desde então, os xingamentos e ofensas começaram. Acontecem na frente de casa, na rua onde chegam a bloquear sua passagem, e até no parquinho onde leva a filha para brincar.
"Eles continuam me incomodando, infernizando e querendo me intimidar. Eu estou buscando uma ordem judicial de medida protetiva", disse.
Com o caso na justiça, mas devagar, segundo ela, as autoridades da Flórida disseram que o máximo que poderiam oferecer seria o pedido de medida protetiva. A defesa dos vizinhos tenta minimizar a situação, segundo sua advogada, Amy Mitchel, alegando se tratar de uma "disputa entre vizinhos", sem considerar as questões de racismo e xenofobia, o que ela nega.
Três audiências já foram remarcadas, segundo Nascimento, desde novembro do ano passado, com a próxima audiência marcada para o dia 10 de abril. Até lá, com receio da violência se tornar física, e temendo até pela própria vida, a brasileira busca apoio e fez o pedido de medida protetiva.
Para Anastacia, as intimidações são para que ela desista das denúncias e vá embora. "Acredito que o sonho deles seria que eu me mudasse. Após a denúncia de que eles estariam roubando o condomínio, eu fui eleita a síndica. Os moradores me escolheram. Imagino que queiram que eu abre mão da sindicância, retire as acusações e me mude. Mas tenho casa própria aqui e seria muito prejuízo, além de injusto", desabafa.
Em vídeos gravados por ela como prova das acusações e enviados ao GN, os vizinhos aparecem xingando-a com palavras pejorativas, mencionando tipo de cabelo, cor da pele e com gestos agressivos. Eles falam em espanhol e ela afirmou que são cubanos.
O Gazeta News entrou em contato com os advogados dos vizinhos, mas não houve retorno até o momento da publicação.
FlóridaCasos de brasileiros vítimas de racismo e xenofobia na Flórida não são poucos. Em fevereiro do ano passado, a filha da atriz Fernanda Pontes, Malu, de 11 anos, também foi vítima e contou em um vídeo que era chamada de "porca brasileira" por algumas meninas da escola que frequentava em Orlando. Apesar de a família informar a direção da escola, nada foi feito. Hoje Malu estuda em outra instituição.
Para Renata Bozzeto, vice-presidente da Coalizão do Imigrante da Flórida (FLIC, na sigla em inglês), o caso de Anastacia ilustra por que a luta pelo Welcoming Florida Act (Lei de Boas-Vindas da Flórida) é tão importante. O projeto de lei foi introduzido nas duas casas legislativas, mas ainda não foi debatido.
"Floridianos, independentemente de seu país de origem, merecem proteção contra a discriminação. Seja em um local de trabalho ou em um parquinho do condomínio, os nossos vizinhos, familiares e amigos merecem o direito de viver sem medo e com proteção legal contra a discriminação. Entre várias outras disposições destinadas a melhorar a qualidade de vida no nosso estado, o Welcoming Florida Act, a proposta de lei introduzida na Câmara e no Senado da Flórida este ano, tornaria a discriminação com base no status imigratório uma violação da Lei dos Direitos Civis da Flórida. Infelizmente, a liderança legislativa do estado não deu ainda a oportunidade para que o Welcoming Florida Act fosse debatido, mas a Coalizão do Imigrante da Flórida (FLIC) está comprometida a trabalhar para que este projeto de lei vire uma realidade", afirmou com exclusividade ao Gazeta News.
Para que haja mais proteção legal aos imigrantes, Bozzeto reafirma que é importante o apoio da comunidade.
"Sabemos que o racismo e a xenofobia são frutos inevitáveis das políticas imprudentes e da retórica odiosa avançadas pelo governador do nosso estado e, por isso, continuamos lutando. Encorajamos os membros da nossa comunidade a documentar e denunciar o racismo e a xenofobia e a juntarem-se a nós na defesa do Welcoming Florida Act para que possamos, juntos, moldar um estado livre de discriminação", completou.
Projetos de leiCom o objetivo de criminalizar tais atitudes, um projeto de lei que está sendo discutido na Flórida pode levar a uma multa de US$ 35 mil por acusar alguém de racismo. O projeto de lei apresentado pelo senador estadual republicano, Jason Brodeur, tornaria difamatório acusar alguém de racismo, sexismo, homofobia ou transfobia, mesmo que a acusação seja baseada nas "crenças científicas ou religiosas" de uma pessoa.
Racismo e a intolerância aumentandoUm número significativo de eleitores da Flórida teme que o racismo e a intolerância estejam aumentando nos EUA, um fator que pode impactar seu comportamento eleitoral, de acordo com uma pesquisa da Florida Atlantic University e da Mainstreet Research.
Numa sondagem realizada em abril de 2023, 56% dos 1.081 eleitores registrados no estado entrevistados relataram um aumento do racismo e da intolerância em todo o país, enquanto apenas 18% disseram que estes comportamentos estão em declínio.
As mulheres e os negros eram especialmente propensos a acreditar que o racismo e a intolerância estão aumentando, com taxas de 62,4% e 73%, respectivamente; a taxa estava mais próxima de 50% para homens e hispânicos.
Entenda o que é xenofobia e racismo nos Estados Unidos
A xenofobia e o extremismo anti-imigrante perpetuam a ideia de que os imigrantes, ou pessoas que são consideradas "estrangeiras" ou "estranhas", ameaçam os ideais fundadores da América e devem ser excluídas de posições de poder, cidadania, ou mesmo de residência nos Estados Unidos. O movimento xenófobo de hoje visa explicitamente os migrantes e requerentes de asilo que atravessam a fronteira sul e também procura promover políticas e violência contra comunidades imigrantes e não-brancas, explicam os autores Elizabeth Yates, Erin E. Wilson e Hanah Stiverson no estudo Xenophobia & Anti-Immigrant Extremism: From Fringe to Mainstream no site Human Right First.
"Os líderes dos movimentos aproveitam muitas vezes as ansiedades sociais sobre as mudanças demográficas, as mudanças sociais e a incerteza política e económica para alimentar a xenofobia. O movimento espalha estereótipos negativos e desinformação que desumanizam e criminalizam os imigrantes, as pessoas com herança imigrante recente e as comunidades de cor, retratando-os como inerentemente ameaçadores", diz o texto.