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Violência por todos os lados

O final de semana foi mais uma vez de muita violência mundo afora. Mas nos mundos que mais nos interessam, que são o mundo em que nascemos (Brasil) e o mundo que escolhemos para viver (Estados Unidos) duas constatações me levaram mais uma vez a refletir sobre o chamado “fundo do poço” da violência cotidiana.
Começando pela nossa querida América, a maior e mais volátil democracia do mundo, onde um estudo desenvolvido nos últimos nove anos revelou dados tão alarmantes que seria mais do que justificável até um pronunciamento presidencial.
Nada se ouviu falar vindo da Casa Branca.
Na verdade, nosso presidente estava dando mais uma demonstração de carinho aos imigrantes mexicanos, comemorando em sua residência a data nacional daquele país, o famoso “Cinco de Maio”.
O estudo, referendado por 14 importantes instiutuições norte-americanas, revela que o país pode até estar menos violento nos “índices percentuais finais”, ou seja, número de crimes cometidos per capta. Essa “meia verdade” que vem sendo alardeada como sinal de “progresso na luta anti-violência” desde meados do governo Clinton, não passa de uma falácia.
Isso porque o que as estatísticas classificam como “evidências de violência” são atos classificados como tais pela velha escola reacionária. Ou seja: um marido que dá “uns tapinhas” na mulher depois de uma bebedeira, é considerado “rusga familiar” e não entra nas estatísticas. Só se um dos dois chegar às vias de fato e acabar com a vida do outro. Quando não, também a sua própria.
O que esse novo estudo, denominado “Violence in America”, aponta, é o que qualquer pessoa mais atenta ao que se passa ao redor, já sabe de cor e salteado:
As pessoas estão muito mais olitárias.
Os ambientes muito mais desumanizados.
Há uma tensão permanente no ar, agravada de forma radical a partir dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.
Cerca de 27% dos jovens americanos entre 13 e 18 anos já pensaram pelo menos uma vez, seriamente, em acabar com a própria vida. Um número ainda maior: 34%, já imaginaram a possibilidade de acabar com a vida de outro. Seja pai, mãe, colega da escola ou simplesmente um desafeto da vizinhança.
O índice de crimes cometidos por menores de 18 anos aumentou mais de 40.
Alarmante: o índice de crimes cometidos por menores de 15 anos, aumentou 63%.
As mulheres, que antes correspondiam a apenas 3% da população carcerária, já são 21%.
Não se assustem com o que agora. Não é estatística de Brasil, nem Colômbia, nem Iraque. É aqui mesmo:
Uma criança negra nascida em bairros pobres nos Estados Unidos tem menos de 25% de chance de completar a High School. Na via inversa, tem 58% de possibilidade de se tornar um marginal, e dentre esses, 89% de possibilidade de estar envolvido com o tráfico de drogas. São números alarmantes, no país mais poderoso e rico, do mundo.
A atenção dada a este estudo pelas grandes redes e noticiários de TV foi ridícula. O “Track TV”, organização não governamental que rastreia os espaços dedicados pela TV a todos os tipos de assunto detectou um percentual de menos de 1 minuto e 30 segundos em média dedicados pelas principais redes norte-americanas a este assunto, na semana passada. Em compensação, uma bizarra gravação da cantora Britney Spears, possivelmente sob influência de algum tipo de estimulante, chegou a ocupar 11 minutos por dia nesses noticiários. Goleada a favor de Britney e de seus seguidores.
No nosso Brasil, o evento cultural que prometia traçar uma linha de conexão entre a música clássica e o rap em São Paulo, terminou com saldo de dezenas de feridos, destruição e um retrato amargo da clara ruptura sócio-cultural que existe em nosso país.
Aquele público que enfrentou a violência policial na Praça da Sé durante o show dos Racionais MC, do famoso rapper “Mano Brawn”, refletem bem o que resultou de anos de total e absoluta exclusão. Enquanto alguns apenas se contentam em “macaquear” os rappers americanos, outras facções se comportam como gorilas-guerrilheiros de uma falange faminta. Faminta de tudo.
A estérica e a anti-ética da violência, virulentamente estimulada pela TV, cinema e video-games, já não é uma ameaça tangencial. É fato. Está no coração de todas as sociedades. Desde as pretensamente superdesenvolvidas, passando pela “em desenvolvimento” – nosso caso – e chegando até a brutalidade animal dos acampamentos de Darfur ou da guerra civil na Somália.
A violência se tornou lugar comum. Dizem até que para ainda dar algum ibope, a violência tem que se tornar ultra-violenta.
A bestialidade toma conta de tudo.
No domingo, durante a transmissão de uma corrida de Nascar, a TV entrevistava um garoto de seus, digamos, 14 anos, sobre o que ele estava achando da corrida. A resposta veio com um sorriso meio apático”
“Não está bom. Ainda não teve nenhum acidente”.
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Gazeta Admininstrator
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