12 anos de Gazeta marcam a consolidação de uma comunidade

Letícia Kfuri.

Durante 500 edições consecutivas, o Gazeta acompanhou o crescimento da comunidade brasileira no sul da Flórida. No início, o projeto modesto do jornal refletia a necessidade dos brasileiros imigrantes de enxergar uma janela para o que acontecia nos Estados Unidos no Brasil e no mundo, no nosso próprio idioma.

O Gazeta testemunhou com imparcialidade a consolidação da nossa sociedade na Flórida, cresceu junto com ela, e amadureceu. É hoje, o jornal local com o maior número de edições publicadas, sem interrupção.

A primeira edição, publicada em 10 de fevereiro de 1994, já apontava para um perfil de prestação de serviços, e noticiava em sua primeira página, a loteria de green cards, e o recadastramento eleitoral promovido pelo Consulado brasileiro.

Em mais de 12 anos, o Gazeta passou por sete reformas editoriais, foi vencedor de cinco Press Awards, evoluiu e buscou, semana a semana, aproximar-se das necessidades de informação e de entretenimento da comunidade brasileira no sul da Flórida, buscou combinar inovação com participação e interesse público.

O Gazeta publicou, em primeira mão, notícias sobre episódios que mobilizaram o mundo, a exemplo do atentado terrorista de 11 de setembro às Torres Gêmeas em New York, em 2001. Foi o único jornal do Sul da Flórida a noticiar o atentado, no mesmo dia, em edição matinal , e conseguiu “furar” até mesmo o tradicional norte-americano Sun Sentinel.

- O jornal já estava impresso na manhã daquela terça-feira (11 de setembro), mas tivemos agilidade para mudar a capa e uma página de dentro, e imprimir uma nova edição, mostrando os principais momentos daquela tragédia. Na manhã daquela terça-feira o Gazeta sumiu dos pontos de distribuição, pois todos estavam ansiosos para saber o que realmente havia acontecido”, lembra Fernanda Cirino, editora do Gazeta.
Ela observa ainda que o episódio de 11 de setembro marcou também uma transformação importante na linha editorial do jornal. “Antes de 2001 nosso foco era mais voltado para cultura, eventos, problemas pequenos de nossa comunidade e divulgação de novos produtos brasileiros que invadiam os EUA. Depois de setembro de 2001, passamos a enfocar os problemas da vida do imigrante, principalmente daqueles que ainda não estavam legalizados. Essa foi uma transformação importante no jornal, pois tivemos que contar com o apoio de vários profissionais da área de imigração, e dedicar um jornlista exclusivo para essa área” , comenta Fernanda.

- Sempre ouvimos todos os lados, o que ofende e o que é ofendido, ouvimos todas as opiniões. Hoje creio que cumprimos o papel de ser um espaço de denúncia para a comunidade, e também de informações e entretenimento. Tenho muito orgulho do Gazeta porque é um trabalho que conquistou seu espaço e a confiança da comunidade”, avalia Zigomar Vuelma, fundador do jornal.

Desafio
No início, fazer jornal era muito mais um desafio do que um negócio lucrativo. “Naquela época o telefone celular não era tão acessível, as ligações internacionais eram caras, não existia internet nem câmeras digitais. Comprávamos jornais e revistas brasileiros em Miami para poder informar às pessoas sobre o que ocorria no Brasil. Eu nunca na vida havia pensado em ser empresário de comunicação, e acho que o primeiro diferencial do Gazeta foi que fazíamos o jornal porque acreditávamos naquele trabalho, e não por causa do dinheiro”, afirma Zigomar.

Doze anos depois de sua fundação – na última campanha legislativa norte-americana – o Gazeta foi escolhido pelas maiores agências de publicidade do País como o veículo de língua portuguesa da região para publicação das publicidades de campanha tanto de democratas quanto de republicanos.

Para Zigomar, foi com a chegada à equipe da jornalista Fernanda Cirino, atual editora, que o Gazeta assumiu o perfil que tem hoje. “A Fernanda estruturou o jornal. Primeiro não vendíamos publicidade, e quando vendíamos não cobrávamos. Eu não tinha mais tempo para dedicar ao jornal. A Fernanda chegou em 1999 como repórter, e foi estruturando a parte jornalística e a área comercial também, se interessou e começou a mostrar resultados.

Gazeta denúncia
O jornal tem sido testemunha dos principais acontecimentos ligados à comunidade brasileira.

O escândalo envolvendo o advogado boliviano Javier Lopera, que foi condenado em maio de 2003, por 19 acusações de fraude e conspiração por requerimentos de vistos fraudulentos. Inúmeros brasileiros foram vítimas do advogado, e o Gazeta denunciou.

Na edição de 17 de setembro de 2002, o Gazeta publicava em sua primeira página a manchete “Escândalos na comunidade brasileira”, relatando a exoneração do ex-Cônsul do Brasil na Flórida, Embaixador Luiz Benedini, por desvios de verbas federais para uso pessoal , e também a prisão do padre brasileiro Elias Guimarães, acusado de pedofilia.

A partir dali, o jornal passou a se tornar uma empresa rentável, comecei a investir mais do que estava investindo, até ele se tornar auto-suficiente”, explica.

Ele lembra, no entanto, que no início, foi necessário muito esforço para manter o jornal circulando. “Depois de fechar a edição, sem dormir, meu sócio na época da abertura do jornal, Ivan Lima, saía com o material debaixo do braço para a gráfica, e levava dois cheques. Quando o banco abria, eu ligava para ele e dizia de quanto ele podia fazer o cheque, e o que ficasse faltando ele fazia o segundo cheque para dalí a três dias”, lembra.

Hoje, Zigomar vê com satisfação os resultados alcançados não só pelo jornal, como também pela comunidade brasileira como um todo. “A comunidade mudou muito, está séria, tem raízes, você vê o pessoal investindo. Na época que Gazeta surgiu, havia alguns restaurantes, lojas de roupas, e de remessas. Eram poucas empresas brasileiras, e não existia um sentido de comunidade. Hoje isso mudou”, observa.

Essa transformação, na opinião de Fernanda Cirino, é um dos grandes méritos dos brasileiros que vivem hoje na Flórida. “Eu sempre digo que a Flórida é um Brasil que deu certo. Antes de 2002 os brasileiros que viviam aqui eram os chamados forasteiros, que faziam algum dinheiro e voltavam para o Brasil para recomeçar lá. Isso ainda existe, mas a maioria escolheu este país para viver, criou raízes, traçou projetos, e fez acontecer. Nossa comunidade mudou muito, e pra melhor. Estamos ganhando espaço e respeito em muitas cidades e conquistando os corações dos que aqui vivem”, diz Fernanda.

Construindo uma história
Ao longo dos anos, a comunidade brasileira no sul da Flórida fez a sua história, e o Gazeta escreveu. Nesta edição de aniversário, o Gazeta lembra um pouco de sua história mas, mais do que isso, homenageia àqueles empreendedores que acreditaram no projeto de fazer do Gazeta um elemento importante de união da nossa gente e, acima de tudo, acreditaram que era possível construir com talento, seriedade e dedicação, uma sociedade de verdade, em terra estrangeira.

Empresário, produtor e jornalista, Carlos Borges é responsável pela criação e produção de três eventos de abrangência nacional na comunidade brasileira. O primeiro foi o Miss Brasil-USA, atualmente à cargo da empresa Enterprises. Este ano, completa 10 anos o Press Award, que premia os melhores profissionais brasileiros no mundo do jornalismo, publicidade, arte e cultura. E mais recentemente, criou o Congresso de Cultura e Comunicação, em âmbito internacional, iniciativas que abriram um espaço importante para a difusão da cultura brasileira neste país. “Eu sempre acreditei demais na comunidade brasileira e diferentemente dos que apostavam que a nossa presença aqui seria passageira, eu creio que temos uma forte tendência a nos tornar uma comunidade econômica e politicamente forte nos Estados Unidos. Até porque, culturalmente já estamos ocupando espaços que poucos imaginariam”, avalia Borges.

Atual editorialista, e editor do Gazeta entre fevereiro de 2002 e junho de 2005, Borges avalia que a independência é o grande mérito do jornal. “O sucesso do gazeta está diretamente ligado ao fato de que o jornal foi orientado para defesa dos interesses da comunidade, acima de qualquer interesse comercial ou pessoal”, afirma.

Houve uma época em que o jornalismo era uma profissão quase tão boêmia quanto a carreira artística. Uma carreira que nem pensava em admitir mulheres. Isso foi, é claro, há muitas décadas. De lá para cá muita coisa evoluiu. Mas daí a dizer que tinturas de cabelo e esmaltes de unha têm alguma afinidade com o jornalismo… vai uma grande distância, certo? Quem acredita nisso não conhece a história do Gazeta. O jornal começou no mesmo endereço, na mesa sala, do Suely Salon, em Fort Lauderdale, onde a vaidade feminina e a notícia conviviam muito bem.

- O Gazeta ficava na entrada do salão, E ali ficou algum tempo, talvez um ano. Havia uma moça que atendia o telefone e fazia reportagens, e o Zigomar. Eu vi bastante da evolução do jornal. Crescemos juntos, firmes e fortes, com qualidade. Éramos na época três salões brasileiros, e depois foi aumentando – lembra Suely, uma das pioneiras no segmento de salões de beleza na região, que hoje tem motivos para orgu-lhar-se do sucesso de seu trabalho em um mercado tão competitivo. “Adoro trabalhar com brasileiros, e o jornal ajuda porque te mantém no mercado, solidifica a imagem dos nossos serviços. Ultimamente tenho apostado na oferta de novos serviços como alongamento de cabelos e escova progressiva, e a resposta é imediata. O jornal sai e o telefone já toca” , comemora Suely.

Especialista em cosmeatria, o Dr. Olympio César Lopes da Silva é outro brasileiro bem sucedido em seu segmento de atuação. Ele trouxe para o alcance dos brasileiros que vivem na Flórida técnicas de medicina estética que até então eram totalmente desconhecidas no Brasil. Foi um dos pioneiros, entre a comunidade, na aplicação de técnicas de correção e estética, que até então só eram conduzidas através de cirurgia, e hoje orgulha-se de oferecer a todas as camadas sociais o acesso às mais modernas soluções de medicina estética.

- Desenvolvi aqui, além da clientela, também novas técnicas não utilizadas naquela época no Brasil. Não havia nem aparelhos nem procedimentos para isso” – comenta o Dr. Olympio. Hoje, ele avalia que não só o seu empreendimento alcançou sucesso, como também a comunidade brasileira no Sul da Flórida, de maneira geral, deu vários passos adiante. “A nossa comunidade hoje é bem diferente daqueles anos, muito mais integrada, mais consciente de seu espaço, e com melhor qualidade de vida. E acho que nesse ponto, o jornal tem um papel fundamental de fazer a ligação entre a comunidade e o nosso país natal, e de ajudar a população a formar sua própria opinião. O Gazeta fala de tudo que é necessário, é completo” , conclui.

Desde o início
A advogada Ingrid Domingues, especializada em assuntos de imigração, foi uma das primeiras anunciantes do Gazeta. Há 12 anos ela também iniciava as atividades em seu próprio escritório de advocacia na Flórida. Hoje é uma das mais respeitadas profissionais do ramo. Ao lado de outros renomados advogados brasileiros de imigração, a exemplo de Yara Morton e Tony Mizelle, ela exerceu papel fundamental no auxílio aos brasileiros que haviam sido ludibriados por Javier Lopera.

- Durante esses 12 anos o único lugar no qual anunciei foi o Gazeta. E eu dou crédito ao crescimento do meu negócio ao Gazeta, sem dúvida, porque acho que cresci junto com ele. Abrimos o escritório mais ou menos na mesma época.”, lembra a advogada, que hoje é uma das grandes referências na comunidade brasileira na área de imigração, e que construiu, passo a passo o seu sucesso profissional ao longo dos anos.

Ela acrescenta que, além da importância como alavanca comercial, o jornal cumpre um papel social importante. “O jornal não é só uma fonte de informação, é mais um veículo de união da nossa sociedade. Para o imigrante é fundamental se informar não só em relação à imigração, mas sobre coisas simples como seguro do carro, plano de saúde para os filhos, conseqüências de assinar um contrato, e nesse ponto o jornal é muito importante”, avalia.

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