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Mais que nunca é preciso cantar

Um dos grandes equívocos dos que defendem uma “tomada de consciência” do povo brasileiro sobre a gravidade dos problemas que afetam o nosso país, é acreditar que, por estarmos vivendo uma fase de grande depressão e crise de auto-estima, deveríamos valorizar menos festas como, por exemplo, o Carnaval.

Fiquei ligado nas tvs Record e Globo nos últimos dias, para acompanhar de perto o Carnaval do Rio, Salvador e São Paulo.
Queria, além de curtir as imagens sempre deslumbrantes dos sambódromos e a alegria genuína e incomparável do carnaval de rua baiano, sentir como as pessoas em geral estavam reagindo a um “Carnaval de luto”, em função da recente de onda de violência e barbárie urbana que assolou nossa Nação.

Fiquei surpreendido com a maturidade de muitas dessas pessoas. Ainda que alguns apresentadores e comentaristas não tocassem em nenhum assunto “não-carnavalesco”, os próprios entrevistados faziam questão de ressaltar o caráter diferente da folia este ano.
Estrelas da TV, jornalistas, celebridades, esportistas e gente do povo, quase toda vez que um deles era entrevistado, fazia questão de ressaltar a importância de ter o Carnaval como válvula de escape e contraponto para um dos momentos mais delicados vividos pela sociedade brasileira em sua História.

E não me pareceu oportunismo ou “marketing”, como facilmente poderia soar. Senti na grande maioria dessas declarações e manifestações, um sentimento real de que o Brasil precisa acordar. Os brasileiros precisam iniciar, sabe-se lá de que forma for, o processo de retomada de seu próprio destino. Não basta apenas cobrar as governantes. A velha mania de nosso povo em esperar do governo a solução para todos os seus problemas, do emprego ao salário-desemprego, das iniciativas empresariais ao assistencialismo político, se vê que já não funciona.

A tragédia do menino João Hélio foi um tremendo sôco no estômago dos brasileiros. Raramente, numa sociedade onde a violência urbana está banalizada num estágio altíssimo e muito perigoso, um crime causa, especificamente, tamanha revolta.
Duas semanas depois, veio o Carnaval. O contraste absoluto com a violência.
O Carnaval que em tese é a proposta de alegria e êxtase, fantasia e libertação.

E Rio que se vê há décadas como vitrine da violência, se re-encontrou com o histórico perfil de “vitrine da folia, da alegria brasileira”.
Era de se esperar os eternos discursos tipo “avestruz”. Como os secretários de segurança, prefeitos, governadores e até eventualmente Ministros da Justiça e Presidentes, já cansaram de fazer. “Violência desse tipo tem em todo o lugar”.
Essa é uma das frases mais manjadas e idiotas que se pode sacar para “apaziguar” um momento de revolta ou justificar um estágio injustificável de insegurança e abandono.
Não ouvimos isso. Talvez eu tenha tido a sorte de não escutar nada nesse nível de imbecilidade.
Ouvi e vi pessoas olhando de frente para as câmeras de TV, mandando recados sérios e importantes. Lembrando a quem estava envolvido com o delicioso processo de festa e folia, que algo muito mais e mais importante estava pairando no ar. Alguns se referiam sempre a ser este ano, o “Carnaval do Luto”.

Pode parecer estranho, mas a mim soou como uma importante tomada de consciência. Se não temos por que e nem queremos abrir mão de nossa “válvula de escape carnavalesca”, tanto melhor que usemos a imensa exposição que a mídia dá ao mega-evento para inspirar a população a pensar no que cada um de nós pode fazer para mudar.

Como no enredo da escola de samba “Viradouro” que deu um show na madrugada de segunda-feira na Sapucaí, o Brasil deveria arregimentar forças para “virar o jogo” e através de maciças demonstrações populares de norte a sul, leste a oeste, exigir que um novo rumo seja dado ao problema da violência em nosso país.

Isso porque a violência, que se tornou parte “aceita” do dia a dia nas grandes cidades brasileiras, já desde os anos 80, hoje espalha-se desde as megalópoles que são Rio e São Paulo, à pequenas cidades em todos os estados do país. Ninguém está seguro, ninguém está imune. E o recurso da “eterna negação”, de argumentos com “fala-se muito nisso, mas eu nunca fui assaltado”, já não pode ser aceito. O fato de enfiar a cabeça no chão não evita que o avestruz seja atropelado. Faz apenas como que ele não testemunhe a própria morte.

Que a beleza do Carnaval, a poesia de alegria e liberdade que o inspira há mais de 100 anos, seja a fonte de inspiração para que lutemos, todos, de todas as cores, classes e religiões, por um Brasil onde multidões em harmonia musical e rítmica, num coro de puro prazer, não seja apenas uma experiência de quatro dias e sim de 365. Onde a violência seja a exceção e nunca a regra.

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Gazeta Admininstrator
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