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Janaína: uma tragédia, muitas lições

A trágica morte da jovem brasileira Janaina Reis chocou a opinião pública não só em nossa comunidade, como ocupou espaços nos sensacionalistas telejornais norte-americanos e hispânicos. Tudo dentro do contexto cada vez mais horrendo e insano que rege os tempos confusos em que estamos vivendo.

Janaína, ainda uma criança – me recuso a aceitar o fato de que muita gente insista em considerar uma jovem de 17 anos como adulta – foi morta por um outro “teenager”, um garoto hispânico cuja idade mental deve ser muito abaixo de sua idade cronológica, possivelmente, segundo testemunhos de amigos próximos ao “Gazeta” e outros jornais, por que ela teria feito alguma ilusão curiosa a respeito do fato do namorado e assassino confesso, o portorriquenho Juan Rafael Arrieta-Rolon, pintar as unhas.
Ou seja, será que num acesso de insana infantilidade Juan Rafael estaria querendo provar que ele, apesar de pintar as unhas, é “macho”.

Tatuagens, unhas pintadas, maquiagem, enfim. Signos que antes eram radicalmente divididos entre as concepções de “macho” e “fêmea” foram apropriados seguidamente a partir dos anos 60 pela cultura pop. 45 anos depois da chamada “revolução sexual” dos hippies, parece que o preconceito, o machismo e a total ignorância reinam nas cabeças de nossos jovens, refletindo o quanto estão perdidos os pais, aqueles que têm a reponsabilidade de orientar, educar e abrir as cabeças dos filhos no sentido de entender a vida, a sociedade humana, suas constantes transformações de valores.

Nossos jovens, nossos filhos. Eles estão expostos a ondas cada vez mais tenebrosas de estímulo à rebeldia-sem-causa, às drogas, ao culto insano da celebridade e do “have fun” sem limites e sem fim.
E certamente, a responsabilidade não é deles. É totalmente nossa. São os adultos que dirigem, criam e produzem todos os valores “vendidos” 24 horas por dia pela TV, cinema, música e moda. Muitos de nós, país de adolescentes, que dizemos amar nossos filhos e por eles fazermos qualquer tipo de sacrifício, saímos de casa pela manhã com a única missão de produzir lixo cultural que será “empurrado goela abaixo” ao grande e sedutor mercado de consumo jovem.

Nos esquecemos que ao sair de casa pela manhã, supostamente para ir à escola, nossos filhos, como os filhos de todos os demais, engrossam as fileiras dessa “manada” de seguidores dos cultos das MTVs da vida.
A tragédia é grande e temo que não tenha nenhuma chance de solução a curto prazo.

Conversando com uma colega da área de comunicação horas antes de escrever este editorial, ela dividia comigo essa profunda preocupação com relação a seus próprios filhos e com os jovens em geral.

Ficamos alí, ao telefone, falando de nosso pânico em relação até mesmo à “natureza” dos namorados e namoradas que nosos filhos tenham. Nos vemos, nós que somos jornalistas, comprometidos com o avanço cultural e social, articulando forma de monitorar e proteger ao máximo os nossos filhos, agindo até certas vezes como “policiais”, por mais que esta seja uma forma até inócua e antipática.

O que fazer ?
A grande maioria dos pais está tão despreparada para lidar eles mesmos com um tempo em que se encara desde o casamento gay até o culto desesperado pela beleza física a qualquer preço. A sensação é de desproteção, caos e “salve-se-quem-puder” e não há atmosfera menos favorável a diálogo, compreensão e equilíbrio do que um ambiente de “vale tudo”.

O assassinato de Janaína me comoveu muito. Fiquei muitas horas refletindo sobre a dor de seus pais, familiares, amigos. Confesso que tive até pena do próprio Juan Rafael, muito provavelmente uma vítima dessa confusão absoluta de valores na qual vivemos atualmente. O que, em nenhuma hipótese explica, justifica ou perdoa a barbaridade de seu ato.

Penso muito em minhas duas filhas. Uma já adulta (28) e uma entrando na fase mais perigosa da adolescência (13). A simples idéia de que uma de minhas filhas possa ser vítima de uma tragédia assim me leva às lágrimas e à depressão. É muito forte e quem ama seus filhos sabe o que significa o simples pensamento que um deles possa ser vítima de violência.

Mas a morte da jovem brasileira de sorriso aberto e amizades sinceras me fez também refletir sobre uma tragédia certamente muito maior desses nossos negros tempos: a alienação dos adultos, dos pais e dos (ir) responsáveis que fazem filhos e os põe no mundo sem ter a mínima noção do que estão fazendo nem das responsabilidades que esse ato carregaria consigo.

Não sei a reposta e ficaria muito grato se soubesse de alguém que pudesse tê-la.
Só sei que entendo completamente aqueles pais que mais do que nunca superprotegem e supervigiam seus filhos, suas vidas e suas ligações. Os filhos podem odiar isso. Os psicanalistas com certeza vão cair matando em cima. I don’t care.

Eu prefiro que minha filha adolescente me odeie agora pelo meu excesso de zelo, sabendo que ela será (espero) grata por esse nível de cuidado, do que dar uma de “pai liberal” (por convicção ou conveniência) e ter que chorar a morte de um ser humano cuja vida e possibilidades estavam apenas brotando.

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Gazeta Admininstrator
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