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A gente ou nós? Existe uma forma correta na língua portuguesa?

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Devemos usar “a gente” ou “nós” como referência à primeira pessoa do plural? Qual a forma correta? Veja os exemplos abaixo:

  1. A gente gostade estudar?
  2. Nós gostamosde estudar?
  3. A gente gostamosde estudar?
  4. Nós gostade estudar?

Em uma primeira leitura, não há dúvida de que as construções3 e 4causam um certo incômodo. E esse “incômodo” não vem do nada. O problema é que elas não fazem parte do uso efetivo de nossa língua.

É verdade que alguns falantes dizem “a gente gostamos” e outros dizem “nós (nóis) gosta”.

Porém, são registros encontrados em variantes sociais e regionais. Devemos entendê-los e aceitá-los dentro de um determinado contexto, e não como padrão formal da língua.

Os linguistas e professores puristas, com uma visão mais arcaica, querem simplesmente abolir a forma “a gente” na função pronominal; por outro lado, alguns contemporâneos preferem deixar cada um falar como quiser, desde que haja entendimento e contexto adequados.

Desde que comecei a estudar ciências humanas, tive a convicção de que os extremos jamais resolvem as polêmicas. É o famoso “não adianta forçar a barra”.

Não adianta fingir que o “a gente” como pronome pessoal não existe. Assim como não adianta simplesmente “liberar” todas as formas de uso, como se as línguas fossem objetos de comunicação sem critérios, regras e determinações para uma prática social efetiva, tanto na fala como na escrita.

Muitos dizem que o uso de “a gente” é um assassinato ao “bom português”. E se existe a forma “nós”, devemos usá-la em todos os contextos. Por essa razão, já começam a criticar os brasileiros, com a justificativa de dizer que nosso povo “estraga” o idioma.

Ora, em francês, temos os pronomes “on” e “nous” para designar a primeira pessoa do plural. O “nous” é para o uso formal, como usamos aqui no Brasil o “nós”; enquanto o “on” é utilizado na linguagem coloquial, ou seja, de uma forma similar ao “a gente” que é usado no Brasil.

E lá em Portugal, como é?

Na oralidade, os portugueses, em congressos, ou seja, em falas formais, usam o “a gente” e colocam os verbos no plural. Em alguns casos, eles dizem: ” a gente fizemos uma pesquisa”. É uma forma aceita em determinados contextos portugueses.

A realidade é uma só: temos, em terras brasileiras, um idioma que usa duas formas para designar a primeira pessoa do plural: a formal (nós) e a informal (a gente).

Quando usamos o nós, conjugamos o verbo gostar, como no exemplo do início deste texto, na forma plural “nós gostamos”. Quando usamos o “a gente”, mantemos o verbo igual ao da terceira pessoa do singular, isto é, “a gente gosta”. Não admitimos, por enquanto, dentro da formalidade, as formas ” a gente gostamos” e “nós gosta”.

E não admitimos essas formas pelo simples fato de que não fazem parte do uso efetivo do idioma. O uso de “a gente gosta” (e não “a gente gostamos”) já faz parte do cotidiano de milhares de falantes de todas as regiões e classes sociais do Brasil. Portanto, a gramática brasileira precisa incorporar esse uso ao ensino.

A gente pode melhorar o ensino de Português. A gente pode mudar essa triste realidade do ensino brasileiro. Basta a gente querer, basta a gente se envolver. A gente é brasileiro e a gente tem uma língua rica; uma língua que está pleno processo de construção de uma brasilidade!

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Rodrigo Maia
Rodrigo Maia
Graduado em Jornalismo, Radialismo e Letras, Rodrigo Maia é especialista em Língua Latina e mestre e doutor em Língua Portuguesa pela PUC-SP. Atua há 16 anos em redações de jornalismo, em grandes emissoras de TV. Atualmente é colunista da Rede Record e biógrafo na Companhia Editora Nacional (IBEP). Há 12 anos, ministra aulas de Língua Portuguesa na PUC-SP, na Faculdade Belas Artes e no Centro Universitário Ítalo-Brasileiro. Como pesquisador, atua no Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa, na USP. Nos Estados Unidos, é membro da American Organization of Teachers of Portuguese. Participe! Mande suas dúvidas para o e-mail rodrigo@gazetanews.com. Quero fazer os textos dessa coluna de acordo com o que os leitores precisam e querem saber. Espero sua mensagem!
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