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Foreclosure: O Anti-Sonho Americano

Palavrinha difícil essa de pronunciar, especialmente para quem ainda apenas “arranha” no inglês. Mas muito pior do que pronunciar essa palavra é vivenciar um processo de perda da casa própria. Para a esmagadora maioria das pessoas, seja aqui, no Brasil ou em qualquer parte do planeta, a conquista da casa própria é um sonho. E a perda do imóvel por falta de pagamento, é claramente, um pesadelo.
O “Foreclosure” – processo de perda do imóvel por falta de pagamento – é impiedoso e não tem “jeitinho” que “dê jeito”.
E numa fase em que a comunidade brasileira está vivendo um processo crítico de recessão econômica, reflexo também da recessão como um todo que se abate sobre a Flórida e os Estados Unidos, a palavra “Foreclosure” ganhou status de palavrão, quando não tem efeitos apavorantes.
Centenas de famílias brasileiras estão enfrentando este processo. Eles fazem parte dos mais de 5 mil processos de retomada de imóveis registrados na Flórida entre janeiro e março.
A Flórida é o maior mercado imobiliário do mundo. Para quem não sabia disso, é interessante descobrir que somente o estado da Flórida registra maior movimento de compra e venda de imóveis de todo o tipo, do que países inteiros como França, Alemanha ou Inglaterra.
Certamente que a noção de que a Flórida é o “Paraíso Tropical” dos Estados Unidos, transformou esse estado num caldeirão de especulação imobiliária a ponto de triplicar o valor dos imóveis em geral num período de menos de 10 anos. Algo impensável numa economia que cresce em torno de 2 a 3% ao ano.
Nessa “ferveção imobiliária” e refletindo o desejo de materializar aqui no “Sunshine State” o seu “Sonho Americano”, milhares de famílias e empresários brasileiros investem, desde 1994, pesadamente em imóveis.
E como o arrojo é natural dos imigrantes que começam a “se dar bem”, outro fenômeno típicamente da comunidade brasileira, floresceu no Sul da Flórida nos últimos cinco anos: a compra em massa de residências de luxo, com pesado comprometimento de “Mortgage” e literalmente, apostando apenas que o futuro seria sempre brilhante. Não foi.
A crise de desvalorização imobiliária na Flórida, antecipada por alguns experts já em fins de 2005, mostra agora sua cara impiedosa e inquestionável, na forma de milhares de processos de “Foreclosure”. Ou seja, o sonho de muitos brasileiros corre o risco de ir para lixo por absoluta falta de bom senso da parte de quem, literalmente, colocou o boné onde não podia alcançar.
Ninguém é “culpado” por ser oti-
mista. Mas tem que estar preparado para pagar pelas consequências de sua visão excessivamente otimista. Qualquer investimento é uma aposta. E para dar mais cores dramáticas ao momento vivido por esses possuidores de pesadas dívidas imobiliárias, surgem em cena os “Salvadores da Pátria”, aqueles que juram em anúncios de jornal e comerciais de TV que vão fazer com que você não perca seu imóvel. Sabe-se lá como…
O que dá lástima é ver que nessas compras “otimistas” de imóveis de valores altíssimos, estão envolvidas uma grande maioria de famílias trabalhadoras, sérias e que se vêm profundamente afetadas pela recessão. A crise do setor imobiliário, que está construindo ou reformando 37% a menos do que estava há dois anos atrás (e 37% é um número imenso em termos de Estados Unidos) afetou um dos mais ativos setores da “economia imigrante brasileira”: a dos prestadores de serviços na área de construção civil.
Evidentemente que o mercado não dei-xou de existir. Mas a recessão força uma competitividade tresloucada.
Essa constatação toda serve em última análise para realçar duas lições fundamentais para quem decidiu viver nos Estados Unidos:
1 – Uma das primeiras regras de sobrevivência e adaptação ao “American Way of Life” é duvidar sempre e insistentemente de qualquer propaganda. Há uma diferença fundamental nos conceitos do que “propaganda enganosa” entre Brasil e Estados Unidos.
Essa diferença é filosófica, ética e moral. E ninguém está certo ou errado. Muita coisa que para nós brasileiros seria anti-ética, para os norte-americanos é “perfectly legal”.
Usar o bom senso – isso vale para aqueles que ainda possuem esse valioso bem – é fortemente recomendável. Por incrível que pareça, tem imigrante brasileiro que acredita piamente quando recebe pelo correio aqueles fabulosos “junk mail” garantindo que “Você acaba de ganhar 1 milhão de dólares”. Até liga prá família no Brasil e diz como a América é maravilhosa. Não é piada.
2 – Outra regra de ouro é a questão do planejamento econômico.
Sei que é difícil conter a euforia. Ninguém pode se culpar por encarar com otimismo o futuro, ao ver seus negócios florescendo, seus salários aumentando e as possibilidades de consumo e melhoria de vida “gritando” em sua frente a cada segundo. Mas com planejamento e parcimônia, os efeitos de uma mudança de clima econômico serão certamente muito menos danosos. É aquela questão. Prá ficar “bonito no filme” o sujeito que está se dando bem no mercado, compra um casão, uma Hummer para ele, uma Escalade para a “patroa” e quatro “Big screen”, um para cada quarto do “casão”. Gera em pouco tempo uma dívida mensal em torno de $8 mil. Acredita que por estar faturando atualmente $10 mil, vai ter “sobra” ainda para outros bibelôs.
Aí, vem a recessão e o otimista profissional acima se vê faturando $4 mil e devendo, todos os meses, mais $4 mil. Esperto não é quem leva vantagem em tudo. Esperto é quem aprende as lições dadas o tempo todo pela própria vida.
Aos que estão passando pelo “sufôco” do Foreclosure unicamente como consequência da crise econômica e de mercado, meus votos de que brevemente a maré mude e eles possam retomar a normalidade de suas vidas.
Aos que passam pelo mesmo momento, mas como consequência de “viagem na maionese”, os mesmo votos de que se livrem desse pesadelo, mas que possam encarar de forma menos infantil e irresponsável, os investimentos no futuro.

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Gazeta Admininstrator
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