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Filho, patrão e consumidor

A sociedade atual encarna uma cultura ainda fortemente marcada por traços patriarcais e machistas que infelizmente muitos homens assumem como próprios, projetando assim longas sombras doentias sobre seus casamentos.

No âmago dessa cultura, a mulher é vista essencialmente em três papéis: ela ou é mãe, ou é doméstica, ou é puta.

Como mãe, ela acalenta, acolhe, está sempre disponível, dá atenção, é paciente e tolerante. Como doméstica, ela cuida de roupa, comida, bagunça; ela organiza e arruma. Como puta, ela está pronta para o sexo toda vez que ele desejar. Três papéis numa pessoa só. E de graça.

A tristeza dessa realidade é dupla. Por um lado, estrangula a mulher em papéis limitantes que anulam sua subjetividade: o que ela quer, sente, pensa? Quem quer saber? Quem a escuta? Ela é de fato mera apêndice, lua que é visível porque iluminada pelo seu sol, sem real autonomia e independência.

Por outro, esses tipos de relação inibem o próprio desenvolvimento masculino porque para o homem significa que ele se posiciona diante de uma mulher somente na qualidade de filho, patrão e consumidor. Como filho ele é o filhinho da mamãe, que, porque é amado (e tem dinheiro), espera ser atendido, servido e obedecido (a mulher nunca deve estar cansada ou ter coisas mais importantes).

Como patrão, ele se sente como o latifundiário que pegou a nega escrava na casa grande e, tendo-a salvo da rua, espera dela gratidão e servidão. Como consumidor, ele quer ser satisfeito nos termos e nos tempos que mais lhe agradam.

Na realidade atual dos casais encontramos uma gradação desses traços que vai do mais leve ao mais pesado. A cada geração há mais homens mutantes, mas ainda estamos mergulhados no sistema patriarcal. De fato, quanto mais poder social e econômico o homem tiver, o que geralmente se relaciona também ao poder de sua personalidade, mais ele estará identificado com o sistema (que lhe dá o poder) e mais próximo estará do modelo acima.

O homem filho desse sistema não sabe, portanto, o que é uma relação com uma mulher porque ele sequer sabe o que é uma mulher. Para isso, ele teria que valorizar o feminino independentemente de sua satisfação egoística.

Para valorizar o feminino, ele teria que tirar um pouco de valor de tudo aquilo ao qual dedicou sua vida: status e dinheiro. Significaria descer do pedestal e reconhecer algo difícil para qualquer um que tenha se dedicado só ao trabalho e ao poder (dinheiro e status): ou seja, que a vida é vazia sem relações, sem intimidade, sem companheirismo. Significaria reconhecer que filhos precisam de presença, tempo e atenção, que não basta dar dinheiro.

Significaria aceitar que as emoções não se administram na base de álcool, carro, sexo e amigos. Haveria de ter a humildade de reconhecer que é preciso cuidar do corpo, dos afetos, dos outros, da terra, dos animais – ou seja, que é preciso ouvir o coração e arcar com as consequências porque quando se ouve o coração se sente a dor que nele está.

Esta é a dor da alma que calou sua verdade. Verdade que emerge quando se olha nos olhos quem se ama de verdade. O que leva a desnudar-se diante do outro – este outro que é diferente, complementar e transgressivo: a Mulher. É transgressivo um homem se abrir de alma para uma mulher, para o outro, para o diferente, porque quando essa abertura ocorre de verdade ele descobre o Outro dentro de si, e então nunca mais será o mesmo.

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Adriana Tanese Nogueira
Adriana Tanese Nogueira
Life Coach com training psicanalítico, filósofa, terapeuta transpessoal, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca em Boca Raton, FL-EUA. Contato: +1-561-3055321 - www.adrianatanesenogueira.org.
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