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Entrevista com Roberto Costa, especialista em segurança pessoal

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Roberto Costa possui 30 anos de experiência em Segurança Pública e Privada.

Roberto Costa possui 30 anos de experiência em Segurança Pública e Privada.

Esta semana inovaremos a nossa coluna com uma entrevista curta, porém, superinteressante, com um dos mais renomados profissionais de “Segurança Pessoal” do Brasil. O mestre Roberto Costa* possui mais de 30 anos de experiência e detém um currículo que lhe credencia de sobra para falar sobre o tema.

O padrão de consumo no Brasil interfere nas questões de segurança dos cidadãos?
Roberto Costa – O Brasil é um país capitalista e sofreu uma repressão ao consumo em período recente em sua história. A partir dos anos 90, o país iniciou uma experiência nova em seus padrões de consumo, houve uma abertura às importações, o que provocou uma frenética busca por produtos importados. Diversos países investiram forte no Brasil, especialmente Estados Unidos, Alemanha, Coreia do Sul, França, Japão, e ultimamente, a China. Aproveitando-se desse movimento, as áreas de marketing das empresas iniciaram uma intensiva pressão de compra sobre os indivíduos. Já não se buscava apenas comprar um par de tênis, mas sim, o status por possuir um de determinada marca. E, assim, foi ocorrendo para os vestuários, veículos, equipamentos eletrônicos, etc. Dado que no Brasil a carga tributária é pesada, temos acesso a diversos produtos, porém, com valores ainda muito altos, comparando-se com os países dos quais os importamos. Isso criou uma espécie de mercado negro, favorecendo a falsificação, roubos, contrabandos e descaminhos. Tudo isso para abastecer esse consumismo compulsivo. Portanto, há grupos interessados em produtos de maior qualidade, importados ou não – e obtidos, muitas vezes, por meios ilegais. O volume de crimes é ascendente. Atualmente, a probabilidade de alguém passar por eventual problema com um criminoso é de um para cada 20 habitantes ao longo de um ano, em média – maioria por roubos e furtos. Em 2009, esse número foi de um para cada 39 habitantes. Isso impacta em nossas vidas, enquanto cidadãos comuns nas nossas rotinas, tanto em nossos lares, nossos deslocamentos pela cidade e demais atividades sociais.

Tratando-se de prevenção, onde as pessoas mais negligenciam na sua própria segurança?
Roberto Costa – A nossa formação judaico-cristã nos conduz a acreditar nas pessoas, no bem, na solidariedade. Ao mesmo tempo, quando o assunto é segurança, nossa tendência é passar toda a responsabilidade para o Estado, mais precisamente para a polícia. Afinal de contas, “eles são mantidos pelos impostos que pagamos”. Sem dúvida, devemos lutar por esse ideal imaginário — que não ocorre nem mesmo nos países mais desenvolvidos, incluindo nesse pleito outros setores importantes como educação, saúde e geração de empregos. Mas, não podemos esquecer o cenário imediato, mais prático, que não pode e nem será mudado da noite para o dia. É diante dele que devemos pensar, prevenir e agir. Há que se aceitar a existência desses problemas e despertar o interesse para adotar processos de segurança em todos os aspectos de nossas vidas.
O comportamento de cada um diminui ou aumenta significativamente os riscos. Suas atitudes revelam seu nível de consciência e consequentemente o nível de segurança que deseja para sua vida. Identificar os pontos de vulnerabilidade, prever situações e prevenir-se sempre não significa, como muita gente pensa, prejudicar o conforto. Ao contrário, ao adotar certas medidas, que ao longo do tempo se tornam quase intuitivas, ganha-se qualidade de vida. Isso não quer dizer privar-se da conquista de um carro novo ou de um relógio bacana. Em vez disso, nosso objetivo é mostrar que é possível, sim, viver no Brasil de forma mais segura, com satisfação e alegria, sem abrir mão das conquistas. Afinal, trabalhamos para proporcionar conforto a nós mesmos e as nossas famílias. São esses os prazeres que a vida nos proporciona e que devem ser protegidos.

Como podemos organizar a segurança em nossas rotinas?
Roberto Costa – Ao dar mais atenção a esse assunto, as pessoas costumam descobrir diversas vulnerabilidades. Descobrem que a residência não está adequadamente protegida. Percebem que dirigem seus veículos criando condições favoráveis aos criminosos (ex: vidros abertos e portas destravadas). Se dão conta que estão utilizando smartphones de maneira displicente em locais mais arriscados (atualmente os smartphones são objetos de grande interesse por qualquer criminoso). Utilizam transportes públicos com bolsas, mochilas e carteiras na parte de trás do corpo, dificultando a vigilância e facilitando ações por parte de delinquentes. Pessoas mais educadas em segurança participam de reuniões quando o assunto tratado se refere a segurança, quer seja na empresa em que trabalha ou mesmo em seu condomínio ou comunidade em que vive. Pessoas educadas em segurança orientam familiares para que desconfiem de telefonemas estranhos, de eventuais prestadores de serviços que tentam entrar em seus lares. Deve ser tratado como estilo de vida – um movimento saudável no sentido de conviver com os problemas de uma grande cidade.

Preservando a identidade, você poderia citar um caso marcante em sua carreira profissional?
Roberto Costa – Certa vez, em uma de minhas palestras a um grupo de executivos, cujo objetivo era o de orientar famílias a se protegerem de incidentes de segurança, emergiu o comentário de uma senhora, até um pouco deselegante para o evento. Ela me disse, em público, de que não utilizaria as recomendações que estávamos discutindo naquele encontro. Que continuaria vivendo da mesma maneira que vinha conduzindo a sua vida, que não daria importância acerca desse assunto. Que não orientaria seu marido, filhos e empregada. Esse assunto não entraria na sua pauta de cuidados com a família. Tentei argumentar de que o objetivo não seria transformar esse assunto em paranoia, mas sim educar a família para prevenção, mas que o livre arbítrio pertence a cada um. Criei um paralelo para justificar meu argumento dizendo-lhe que não vamos ao médico com a regularidade que o assunto requer, ou ao dentista, nem acompanhamos a lição de casa dos filhos como deveríamos – é o livre arbítrio e cada um. Coincidências da vida, ela teve sua família sequestrada, aproximadamente um mês após o nosso encontro. Sequestradores levaram ao cativeiro seu marido, três filhos e a empregada, grávida de sete meses na ocasião. Fui acionado para gerenciar a situação, atuamos tecnicamente, não mencionei nada acerca daquela reunião em que ela recusou destinar a atenção adequada a esse assunto. Conseguimos liberar todos do cativeiro, sem nenhuma sequela sequer. Após a família toda reunida em casa, eu estava organizando meus equipamentos e equipe para deixar o local quando essa senhora me abordou. Me perguntou se eu me lembrava dela e dos seus comentários sobre prevenção na oportunidade do encontro que tivemos. Disse que me recordava claramente, mas não mencionei nada em respeito ao triste momento que ela e sua família estavam passando. Ela insistiu em continuar esse assunto, relembrando-me do seu repúdio à prevenção, não porque sinceramente acreditava nessa ideia, mas por medo. Em suas palavras, disse que havia decidido colocar uma espécie de cortina entre a família e esse assunto – não queria dar atenção à segurança. Achou que ao fazer isso, estaria alienada dessa realidade social. Reconheceu que se houvesse seguido uma de minhas dicas de prevenção, a família não teria passado pelo que passou. A lição que obtive desse episódio: será que precisamos passar por um grave problema para que tenhamos consciência da necessidade da prevenção? Fica a dica.

Quais dicas de segurança você recomenda para as pessoas que estão indo para o Brasil, de um modo em geral?
Roberto Costa – Existem três tipos clássicos de criminosos: o terrorista, o mentalmente perturbado e o criminoso comum. No Brasil, ainda não temos a manifestação de atos terroristas ou dos mentalmente perturbados. Temos, sim, o criminoso comum, que opera nos crimes organizados ou no oportunismo. É exatamente o criminoso comum, o oportunista, que faz os maiores estragos. É ele que eleva os índices de criminalidade e ataca o cidadão comum, gente como a gente. Em nosso país, o criminoso não tem nada contra as suas vítimas, para ele é apenas um negócio. A recomendação mais importante que posso oferecer é a da não reação caso esteja sendo vítima de um delinquente. Procure explorar muito a prevenção e, caso isto não tenha funcionado, não reaja. O patrimônio, em tese, pode ser reconquistado (carteira, relógio, celular), enquanto que a vida, a integridade física e psicológica não. Invista em um bom treinamento para a sua família, invista na proteção física do seu lar, adote procedimentos de segurança nas suas rotinas e de sua família. Isto já afastará a maioria dos eventuais problemas. Criminosos no Brasil, via de regra, estão armados e muito tensos, o que promove incidentes não planejados, daí a recomendação da não reação.

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*Roberto Zapotoczny Costa possui 30 anos de experiência em Segurança Pública e Privada. Sócio na empresa The First Consultoria. Mestre em Educação, Administração e Comunicação. Graduado em Administração de Empresas. Pós-graduado em Política e Estratégia (USP). MBA em Gestão Empresarial. Especialista em Administração de Segurança e Professor convidado pela Universidad Comillas de Madrid (Espanha). Especialista em Gerenciamento de Segurança e Crises (Israel) e em Inteligência Policial (EUA). Criou e coordenou o primeiro curso superior em Gestão de Segurança Empresarial e Patrimonial e o MBA Gestão Estratégica de Segurança Empresarial (Universidade Anhembi Morumbi). Diretor do DESEG – Departamento de Segurança da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. É autor do livro: “Gerenciamento de Crises em Segurança Empresarial e Sequestros” (2008).

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Igor Pipolo
Igor Pipolo
Igor M. Pipolo, ADS, ASE, é CEO da Nucleo, Inc e Diretor da SEKURA (EUA) e diretor do Departamento de Segurança da FIESP. Professor convidado da Universidad Pontificia Comillas de Madrid/Espanha. Sócio-fundador e ex-presidente da Associação Brasileira dos Profissionais de Segurança. Ex-presidente da American Society for Industrial Security.
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