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Comunidade e Transitoriedade

A trajetória da comunidade brasileira nos Estados tem semelhanças (algumas) e distinções (muitas) das trajetórias de outras comunidades estrangeiras em território norte-americano. Essas semelhanças são fruto da essência do ser imigrante, das barreiras humanas individuais e coletivas. Da ansiedade, da saudade (que uns ainda insistem em advogar que é uma palavra que só existe no nosso vocabulário) e do eterno dilema da “adaptabilidade”.

As distinções são muitas. Talvez a maior e mais “global” de todas é a “síndrome da transitoriedade”. Cunhei esse termo tão logo comecei a exercer o jornalismo aqui na América, em 1990. São já 16 anos fazendo isso “todo dia”, às vezes sob a proteção de uma estrutura mais profissional, às vezes resguardando apenas pela convicção absoluta em ser leal aos próprios princípios, do que é certo e do que errado.

O “Estigma da Transitoriedade” não é um pecado. Sequer é um defeito. É puramente uma realidade palpável, gritante, e que se apresenta como um quase-monolito diante dos que, como eu, discutem constantemente a problemática e as perspectivas da presença brasileira nos Estados Unidos.
Esse estigma é algo tão forte que durante muitos anos foi o “fator X” na inibição de políticas corporativas e do governo federal, que se acostumaram a tratar a “onda emigratória” que se desenvolveu no Brasil a partir dos anos 90, como um “fenômeno temporão e inconsequente”.
A realidade dos fatos de então corroborava essa visão de curta metragem.

99% dos brasileiros que emigravam para os Estados Unidos nos anos 90, o faziam de uma forma escapista ou folclórica. Se as áreas de Boston e Newark eram os destinos naturais dos que procuravam passar uma temporada faturando em dólar para voltar ao Brasil dois anos depois, “abrir um negócio, comprar uma casa e um fusca”, no Sul da Flórida, o desembarque se dava mais em função de fatos político-econômicos como o “sequestro da poupança”, “a falência do Plano Cruzado”, etc e tal.

Desde esse momento inicial eu percebia que eram poucas as linhas de conexão entre essas comunidades brasileiras espalhadas pelos Estados Unidos e foi justamente a criação de evento Miss Brasil-USA (por mais incrível que isso possa parecer aos que torcem o nariz para tudo o que rotulam de “brega”) que iniciou o estabelecimento de uma ainda tênue, mas vibrante, rede interligando os brasileiros em todo o país.
Isso só foi possível graças ao papel integrador, único e inquestionável, dos jornais e revistas brasileiros publicados nos Estados Unidos.

Independente da qualidade gráfica e editorial que podiam exibir na época, em função da escassez absoluta de recursos, esses veículos foram e seguem sendo a grande “amálgama” da comunidade brasileira.
Em anos mais recentes, a chegada das redes Globo e Record através da Dish Network colocou “as cerejas” no bolo e deu à comunidade não só a possibilidade de conexão eletrônica com o Brasil, mas a esperança (ainda firme e forte) de se ver refletida nas programações de nossos canais internacionais.

Hoje, a “Síndrome da Transitoriedade” permanece como uma característica muito forte na comunidade brasileira, mas o percentual mudou radicalmente. Se antes, 9 de cada 10 brasileiros que estavam nos Estados Unidos nem sequer admitiam a possibilidade de se estabelecer aqui. A “estranheza” ao ambiente cultural, social e comportamental eram tão óbvios, que o melhor que se podia era não ir fundo nesse assunto para não ganhar rótulo de “entreguista”. Viví demais esse dilema.

A partir do começo do século XXI, mais e mais se notam indicadores de que uma parcela considerável de brasileiros, de Boston a Miami, de Atlanta a Los Angeles, já assumiu a opção de ter os Estados Unidos como sua residência fixa. Uma outra parcela está na fase transitória entre “passar ua chuva” e “pensar em ficar”.
Somados esses dois grupos e sua capacidade de influenciar o ainda grande grupo de “transitórios”, eu arriscaria dizer que hoje cerca de 40% dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos tendem a ficar raízes definitivamente por aqui.

Para isso contribuem fatores bem lógicos e práticos:

– Têm e continuam gerando filhos que nascem aqui. São cidadãos norte-americanos com todas as perspectivas de vida que um país como os Estados Unidos oferecem.

– Há uma desolação muito grande com relação ao quadro social, de segurança e emprego, no Brasil.

– As idas e vindas ao Brasil para visitar parentes e amigos suavizam o “drama da saudade”. Mais e mais brasileiros comentam estar indo ao Brasil “apenas uma ou duas vezes por ano” e ficando um tempo menor.

– Os brasileiros estão mais e mais envolvidos com suas vidas profissionais e familiares na América. São realistas quanto a seu futuro, reconhecem os progressos obtidos aqui e freqüentemente comparam suas chances de repetir esse sucesso num ambiente incerto.

– Ainda que numa velocidade longe do desejada, começam a sedimentar iniciativas que refletem a existência de uma “sociedade brasileira” nos Estados Unidos, comprometida em promover a nossa cultura num patamar de harmonia com a cultura adotada. Em todo o país se pode sentir os efeitos de grandes progressos nesse sentido. A visibilidade brasileira, obtida pelo espetacular sucesso do “Brazilian Day”, inspirou a multiplicação desse evento que é “template” para mais de 70 eventos do gênero, de todos os tamanhos e abrangências, em cerca de 26 estados norte-americanos. Eventos como os festivais de cinema em Miami (10 anos) e New York (4 anos), o Press Award (10 anos) e o recém-criado Congresso Internacional de Cultura e Comunicação Brasileira, refletem de uma forma inequívoca a solidificação de um “tecido brasileiro” em território norte-americano.

– Entidades como as Chambers of Commerce, não só as grandes, de New York e Miami, mas as ainda pequenas como Los Angeles, Atlanta e Chicago, estão começando a representar não apenas os interesses das grandes corporações com mútuos negócios entre Brasil e Estados Unidos, mas também os pequenos e médios empresários de atuação e sucesso na comunidade. Entidades setoriais, como a Brazilian American Advertising Association e a Associação Brasileira de Imprensa Internacional, são sinais nascentes de que o processo de organização é inevitável e inadiável.

– A mudança de atitude de órgãos brasileiros como o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) e o MInistério da Cultura, é um sintoma crucial. Sei que faz parte do folclore viver reclamando de que o governo brasileiro faz pouco e mal pela comunidade. Essa era uma verdade. Justiça seja feita. Pode se ter milhões de restrições ao atual governo em “ene” aspectos, mas seria estupidez não admitir que nos últimos quatro anos, a atitude e as ações do Itamaraty mudaram a face da relação de Brasília com as comunidades brasileiras no exterior. Isso não se deu apenas por “boa vontade”, e sim, pela clara evidência de que a comunidade brasileira nos Estados Unidos já não é mais um “fenômeno temporão”.
Ou seja, bem do nosso jeito, mas já com fusão de neurônios com o “american way of life”, a trajetória da comunidade brasileira nos Estados Unidos já se escreve de uma forma bem diferente da que se imaginaria há 15 anos atrás.

Vemos essa evolução como positiva porque presumo que mais cedo do que muita gente imagina, o Brasil irá representar um papel crucial nas relações planetárias dos Estados Unidos. E uma comunidade quantitativa e qualitativamente forte na América, será um suporte fundamental para nossa pátria e nossa cultura.

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Gazeta Admininstrator
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