Cinomose Canina – Saúde Animal

cinomose-10241Quase todo mundo já ouviu falar da cinomose canina, e sabe que é uma doença grave. Felizmente, existem formas de vacinas muito eficazes e a cinomose já não é tão comum. Porém, a doença não está completamente erradicada e ainda circula entre a população de cães, principalmente os mais jovens e que vêm de um abrigo (shelter) ou de pet stores, com histórico vacinação deficiente ou ausente.

Os sintomas da cinomose quase sempre começam com secreção nos olhos e no nariz, febre intermitente, perda de apetite e tosse com subsequente pneumonia.

O vírus ataca áreas do corpo que interagem com o ambiente, as membranas mucosas, começando pelo trato respiratório (pneumonia), mas não para por aí. O vírus então começa a atacar o epitélio gastrointestinal, causando vômito e diarreia. Às vezes, a doença pode causar o endurecimento do epitélio das almofadinhas dos dedos (foot pads).
Após as fases respiratória e gastrointestinal (fases mucosas), o vírus se encaminha ao sistema nervoso central, iniciando a fase neurológica da doença. Esta fase é caracterizada por convulsões do tipo epiléticas, contrações da mandíbula (como se o cachorro estivesse mascando chicletes), tremores, perda de equilíbrio e coordenação motora, perda de controle dos membros (mais comumente os membros traseiros). Os sintomas podem progredir à morte ou tornarem-se estacionários, porém permanentes. A recuperação completa é difícil, mas é possível, e às vezes o paciente parece se recuperar por completo, mas apresenta sintomas neurológicos poucas semanas depois.
Os filhotes mais jovens ou indivíduos com imunidade comprometida quase sempre morrem durante a fase mucosa; e os cachorros mais fortes podem passar pela fase mucosa com sintomas suaves que às vezes passam despercebidos e só demonstrar sintomas óbvios da doença quando entram na fase neurológica.

O vírus da cinomose é parecido com o vírus do sarampo humano. Há muito anos atrás, antes do advento da vacina contra cinomose, filhotes de cachorros eram imunizados com a vacina contra sarampo. O vírus da cinomose consiste de um filamento de RNA simples envolvido em um envelope lipídico (gorduroso). Sem este envelope, o vírus não é capaz de sobreviver no ambiente e por essa razão a transmissão viral tem que ocorrer através do contato direto de cão a cão ou com secreções corporais frescas (de menos de 3 horas em temperatura ambiente). O vírus pode, portanto, sobreviver ao congelamento por vários anos se estiver protegido da luz direta. Limpeza e desinfecção dos canis matam o vírus da cinomose com facilidade, pois causa a desestabilização do envelope lipídico.
Um cão doente passa o vírus da cinomose a outro cão quando tosse e lança no ar as secreções respiratórias. A cinomose também pode ser transmitida através de outras secreções corporais, como por exemplo fezes e urina. Quando o vírus entra no organismo do cão, inicia-se a replicação viral. Os macrófagos, células do sistema imunológico, começam a envolver o vírus para tentar isolá-lo e destruí-lo através de enzimas. Infelizmente, para o cão hospedeiro, este processo não é suficiente para conter o vírus, que usa o macrófago como meio de transporte para atingir outras áreas do corpo do hospedeiro. Dentro de 24 horas, o vírus atinge os linfonodos dos pulmões. Após 6 dias, o vírus já foi capaz de migrar para o baço, estômago, intestino delgado e fígado. É nesse ponto que se nota o estado febril do paciente afetado.

No oitavo ou nono dia de infecção, o hospedeiro monta uma resposta imunológica crucial. Dependendo da capacidade desta resposta imunológica, ou seja, se for suficientemente rápida e eficaz, o animal começa a eliminar o vírus do seu corpo no décimo quarto dia após a infecção. Se a resposta imunológica for insuficiente, o vírus atinge as células epiteliais e o hospedeiro sucumbe aos sintomas.

Após um período de tempo, o vírus é capaz de se “esconder” no sistema nervoso e nas células da pele por um longo período, e após este tempo as convulsões podem começar a aparecer. Às vezes, as convulsões aparecem quando se pensava que o animal já se havia curado.

Quase todos os casos de cinomose nos EUA acontecem em filhotes. O colostro da cadela mãe no primeiro dia de vida fornece uma imunidade temporária, que desaparece quando o filhote tem 16 semanas de vida, deixando o filhote vulnerável se a série de vacinas não for administrada. Em países onde a vacinação não é rotineira, a cinomose pode atacar cachorros de qualquer idade.

A confirmação do diagnóstico de cinomose é baseada no quadro clínico, pois não há um teste ante-mortem (ou seja, no paciente vivo) que dê um resultado positivo ou negativo. O veterinário tem que avaliar o animal e a história clínica como um todo para chegar ao diagnóstico. Níveis de anticorpos contra cinomose altos podem ser devido à vacinação ou à infecção, e a diferenciação pode ser complicada. Se o cachorrinho apresenta sintomas, o diagnóstico é confirmado.

O diagnóstico também pode ser feito através de biópsia dos calos das almofadinhas das patas, ou até mesmo pela análise do líquido céfalo raquidiano, mas esses testes são mais caros e raramente usados.

O tratamento da cinomose está continuamente mudando. Como se trata de um vírus, não há antibiótico que seja efetivo. O mais importante neste tratamento é que o paciente tenha suporte físico que o mantenha vivo o tempo necessário para que o seu sistema imunológico possa combater a doença. Antibióticos são usados para controlar as infecções secundárias que frequentemente são associadas à cinomose, como por exemplo, a pneumonia. Manter a hidratação adequeda do animal é fundamental, pois através da diarreia e dos vômitos o paciente pode rapidamente chegar à morte por desidratação. Como os sintomas de cinomose são variados, o tratamento também é variado. As fases respiratória e gastrointestinal são mais tratáveis do que a fase neurológica. Cães que se recuperam da fase neurológica podem ter sequelas para o resto da vida, como por exemplo, convulsões frequentes ou paralisia de membros. Se as sequelas forem muito debilitantes, muitas vezes se recorre à eutanasia.

O diagnóstico definitivo e o tratamento da cinomose são difíceis, mas por outro lado a prevenção é fácil. A vacina contra essa doença existe desde a década de 50. Graças à vacinação, a cinomose hoje é uma doença rara, exceto nos abrigos (shelters) e, infelizmente, em algumas pet stores que vendem animais procedentes de “puppy mills”, como são conhecidos os criadores inescrupulosos que não fornecem o mínimo de higiene e prevenção de doenças.

A vacina contra a cinomose geralmente vem combinada com as vacinas contra a parvovirose, hepatite e parainfluenza, e, às vezes, podem ser combinadas com a vacina contra a leptospirose. A sequência de vacinação deve ser iniciada quando o filhote tem de 6-8 semanas de idade e deve ser repetida de 3 em 3 semanas até que o filhote complete 16 semanas de idade. Após esse ciclo inicial, a vacinação deve ser repetida anualmente até que, mais tarde, o reforço é feito de 3 em 3 anos, dependendo do protocolo usado pelo veterinário e dependendo também da região geográfica e da prevalência da doença. O uso da vacina contra o sarampo humano para prevenir a cinomose já não é recomendado há muitas décadas.

A vacina usada contra a cinomose pode ser uma das seguintes formas: a tradicional vacina obtida pela inativação do vírus, nesse processo o vírus vivo é modificado para induzir uma resposta imunológica sem causar a doença. A outra forma de vacina é obtida na forma recombinante, onde um vírus inofensivo contém uma fração do vírus da cinomose suficiente para produzir a resposta imunológica. Complicações em consequência da vacina são muito raras, mas são possíveis com a vacina de vírus vivo modificado.

Uma consequência da cinomose que, felizmente, não é comum é a chamada “encefalite de cães geriátricos”. Este tipo de encefalite é uma inflamação crônica do cérebro de um cão que sobreviveu à cinomose. O paciente vive sem problemas durante a maior parte da sua vida, mas os sintomas da fase neurológica aparecem quando ele atinge a idade avançada. Não se sabe exatamente o que causa os sintomas a aflorarem após tantos anos.
Seres humanos podem contrair o vírus da cinomose, mas não são afetados por ele. No passado, pesquisas relacionando o vírus da cinomose à esclerose múltipla foram feitas, pois se suspeitava que a cinomose canina poderia causar a doença. Mais tarde se determinou que o vírus do sarampo humano pode estar relacionado à esclerose múltipla e, aparentemente, a cinomose canina não é capaz de causar nenhum dano à saúde humana.

Um cão que sobrevive à cinomose desenvolve imunidade permanente, mas pelo simples fato de que a vacina contra cinomose é administrada em combinação com outras doenças sérias, a vacinação deve ser continuada. Além disso, como a confirmação da cinomose como diagnóstico é problemática, há uma possibilidade de um diagnóstico equivocado. E não há mal algum em continuar a vacinação em um sobrevivente da cinomose. De fato, nesse caso, haverá uma rápida resposta imunológica contra o vírus da vacina e este será inativado exatamente como uma infecção natural.

Dr. Paula Ferreira – Ferreira Animal Hospital  | www.ferreiravetcare.com

Publicado em Colunas, Saúde Animal por Dra. Paula Ferreira. Marque Link Permanente.

Sobre Dra. Paula Ferreira

Dra Paula minnieDr. Paula Ferreira obteve o seu diploma veterinário da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil. Ao chegar nos Estados Unidos, passou com êxito no exame do National Board of Veterianry Medicine (NAVLE) e o programa ECFVG de um ano (Education Commission for Foreign Veterinary Graduates) da Universidade de Missouri, em Columbia, Missouri.
Dr. Ferreira praticou medicina veterinária rural na Amazônia e medicina urbana no Rio de Janeiro, Nova York, e agora, em Miami. Depois de trabalhar em uma grande franquia de clínica veterinária geral em Miami, por sete anos, ela decidiu ir atrás de seu sonho de construir um hospital veterinário, onde ela poderia praticar a melhor medicina de qualidade em uma instalação moderna, proporcionando atendimento personalizado aos pacientes.
Dr. Ferreira tem interesse especial em medicina holística – ela estudou acupuntura veterinária no IVAS (International Veterinary Acupuncture Society, Houston, Texas) e foi praticando-a juntamente com a medicina veterinária tradicional, com grande sucesso, por muitos anos.

Contato: miamivets@gmail.com

Uma ideia sobre “Cinomose Canina – Saúde Animal

  1. Bom dia !!

    Há 12 dias resgatei uma cachorra de rua que estava doente. Levei em seguida no veterinário e ele diagnosticou com cinomose devido a tiques na boca e testa dela.
    Ela tem cerca de 10 anos. As plaquetas estavam 44 mil mas sem febre , vômito e diarréia.
    Repeti o exame de sangue hoje, e as plaquetas foram pra 115 mil, ela ganhou 1,300 kg, come bem, brinca, corre, é feliz. O veterinário dela acredita que ela se curou do vírus, e que portanto está apenas com as sequelas neurológicas. Estamos medicando e cuidando com muito amor para dar uma velhice digna pra ela longe das ruas. Tenho uma cachorra que já era vacinada, nós reforçamos a vacina logo que pegamos essa da rua, e hoje o veterinário autorizou deixá-las juntas. Muito feliz. Cionomose tem cura !!. Abraços.;

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