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Chico Buarque abre festival de literatura em NY

Convidado da conferência de abertura do Festival of International Literature of New York, Chico Buarque apresentou-se sem a mínima cerimônia: falou (sempre em inglês) de suas mais remotas motivações, da relação com o pai, Sérgio Buarque de Hollanda, pôs os óculos para ler um trecho de Budapeste e brincou com a platéia – 50% composta de brasileiros, segundo censo informal de Paul Auster, que pediu para o público levantar as mãos.

Chico estava à vontade, relaxado. “Descobriu” no meio da platéia o tradutor de seu romance Estorvo, Peter Bush, e brincou com ele. “Peter fez um grande trabalho na tradução, exceto pelo título”, disse. Estorvo foi traduzido para o inglês como Turbulence. “Não existe um equivalente em inglês. Em italiano, é Disturbo, e também não é a mesma coisa. Estorvo é uma palavra extraordinária que só é privilégio das línguas portuguesa e espanhola.”

Fez a platéia rir a cada brincadeira, a cada história. Paul Auster o inquiria com reverência (“Chico é um homem de muitos chapéus”, disse o autor, referindo-se à variedade de afazeres do artista), e o cantor foi se soltando cada vez mais. Explicou a atração que sentiu pelo tema de Budapeste, no qual aborda o tema do herói (José Costa, e seu duplo húngaro). “A Hungria é fascinante. O húngaro não tem nada a ver com a língua dos vizinhos, embora fique no centro da Europa. As pessoas lá têm cultura, etnia, várias coisas comuns com os vizinhos, mas a língua é completamente diferente.”

“Não jogo com as duas bolas ao mesmo tempo. Ou sou um escritor, ou um compositor. Estou escrevendo canções agora, provavelmente eu faça um disco assim que terminar. Tem sido assim: escrevi três romances e, entre eles, sempre houve um período musical”, contou o compositor, que elogiou o estilo cru do hip-hop brasileiro. “Eles cantam e são ouvidos, é um poderoso instrumento de comunicação com seu público, e tem um discurso social. Hoje em dia, eles fazem isso melhor que ninguém. Ao mesmo tempo, eu não sei como manejar esse tipo de composição. Eu faço música como nós a conhecemos no século passado, como é a nossa referência.”

Parafraseando Lee Falk, o autor do herói Fantasma, pode-se dizer que, em Nova York, Chico andou pelas ruas como um homem comum. Mas de comum não tinha nada: atravessou a Lexington Avenue ladeado ora por Salman Rushdie, ora por Paul Auster. Sua platéia incluía o compositor David Byrne e o escritor Antonio Skármeta. Arredio no Leblon, deslizou pela 5.ª Avenida com a mão no bolso, assobiando.

Frases de Chico Buarque:

“Eu quis ser um escritor, essa foi minha ambição sempre (antes de ser cantor e compositor). Meu pai, que era historiador e ensaísta (Sérgio Buarque de Holanda), não me impulsionou, mas apreciou quando eu escrevi. Mas, quando me tornei compositor, ele também ficou feliz. Era um homem que apreciava muito a música. No Brasil, a cultura popular também é levada muito a sério. Eu tinha 21, 22 anos quando comecei a escrever”.

“Há 15 anos eu escrevi meu primeiro romance. No Brasil, me chamam mais de compositor do que de escritor. Mas eles têm de aceitar a idéia de que eu posso ser também um escritor. Comecei a escrever, como é comum, contos. Meu editor, Luis Schwarcz (da Companhia das Letras), me disse um dia: vá em frente, escreva agora um romance. Assim como meu pai, 40 anos antes, me dissera: não vá em frente. Levei um ano para escrever o meu primeiro romance. Budapeste eu escrevi em dois anos”.

“Só por diversão, quando vivia na Itália, eu tentei traduzir algumas canções minhas para o italiano. É difícil, é quase impossível. Você tem de encurtar versos para caberem na canção. Tem problemas de rima, de métrica. O que eu acho é que há um valor no casamento entre letras e música, um valor que é duro de achar em outras línguas. Mas você pode tentar. Hoje mesmo, no lounge do hotel, ouvi a voz da minha sobrinha, Bebel Gilberto, ela estava cantando em português, e as pessoas ouviam, estavam curtindo. Nem sempre é necessário que se traduza para que a música seja apreciada”.

“Sempre escrevo as letras para uma determinada música, já pronta. Não me vejo escrevendo uma letra sem que haja já a música. Não escrevo poesia, escrevo prosa. E penso que escrevo um romance da mesma forma que escrevo música. Nunca ouço música enquanto escrevo, no entanto. Você não presta atenção. Há música em todo lugar. No elevador, com a música, as pessoas quase dançam. No meu quarto de hotel, há música. No restaurante. É quase como uma praga. Eu gosto de prestar atenção na comida enquanto como. E, quando escrevo, para achar uma frase que faça sentido, eu leio, depois releio, preciso de concentração. Tenho orgulho quando consigo ler com uma espécie de prazer musical”.

“A música brasileira é especialmente forte. Isso vem desde Ary Barroso, Carmen Miranda. E tem a bossa nova, que é imensamente apreciada pelos jazzistas americanos. Mas acho que temos também boa literatura, que tem sido encoberta pelo grande sucesso da literatura latino-americana, pelo realismo fantástico latino americano. A música não é a única janela da alma brasileira”.

“A censura no Brasil foi muito dura com o teatro, a música, a TV. Mas não com os livros. Meu primeiro livro não era bom. Foi escrito para outro tipo de necessidade, era raivoso, não obedecia às necessidades íntimas. Às vezes leio as canções que escrevi nos anos 70 e eu mesmo não entendo o que escrevi. Algumas são muito tortuosas, sombrias. Vivi um ano e meio exilado em Roma. Mas não fiquei. Não por causa de Roma, que é maravilhosa. Para o meu trabalho, foi muito difícil. Você não se sente naquela vida, fica desconfortável o tempo todo”.

“Sou um perfeccionista, mas não um trágico perfeccionista. Tenho prazer fazendo música. O problema é que, quando escrevo, tenho de achar a palavra que está detrás daquela música, e isso é trabalhoso”

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Gazeta Admininstrator
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