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Astronauta brasileiro diz que, se pudesse, iria para o espaço hoje

Momentos antes do lançamento da espaçonave Columbia, em janeiro de 2003, o então major Marcos César Pontes, o primeiro astronauta do Brasil, encontrou no Centro Espacial Kennedy o israelense Ilan Ramon. Com seus seis companheiros de missão, Ramon teria um trágico destino. Colega de treinamento de Ramon, Pontes perguntou em tom de brincadeira se o amigo estava pronto para voar. Ao ouvir a resposta positiva, propôs:

– Se não estiver, eu vou em seu lugar.

Era uma brincadeira, relata Pontes ao se lembrar do episódio. Após perder o amigo, o astronauta brasileiro participou das investigações sobre o acidente com o Columbia e acompanhou a reformulação da política de vôos espaciais da Nasa. Hoje, diz que repetiria – a sério – a proposta que fez a Ramon para qualquer um dos sete astronautas escolhidos para a primeira missão tripulada da agência espacial americana após uma pausa de dois anos e meio. Pontes diz que não teria medo de trocar de lugar com um deles.

– Sem dúvida, eu estaria lá mesmo. Hoje – responde, rindo.

Agora tenente-coronel, Pontes deve esperar mais um ano ou dois para ir ao espaço. Em entrevista por telefone ao GLOBO ONLINE, ele contou que está torcendo para que seu vôo, em negociação com a Rússia, seja marcado para 2006.

– Quero ir em 2006 porque é o ano do centenário do vôo do Santos Dumont no 14 Bis. Sou o maior fã dele. Quero inclusive levar o chapéu dele para o espaço – diz o astronauta.

GLOBO ONLINE – A Nasa está para lançar sua primeira missão tripulada após o acidente com o Columbia. O senhor acredita que o Discovery está preparada para voltar ao espaço?

MARCOS CESAR PONTES – Sem dúvida nenhuma. Você tem que considerar, por exemplo, que qualquer avião comercial não é 100% seguro. Há risco de alguma pane no sistema trazer o avião para o chão. O ônibus espacial segue o mesmo princípio. Mas, se levar em consideração tudo que a ciência tem hoje em termos de sistemas espaciais, o ônibus espacial tem basicamente tudo que precisa para ser seguro. Ele basicamente é muito seguro.

Desde 1998, o senhor treina na Nasa. Como foi acompanhar o acidente com o ônibus espacial Columbia?

PONTES – A primeira reação é uma espécie de espanto. Ninguém quer acreditar realmente que aconteceu aquilo. Em seguida, vem a tristeza, porque se perdem amigos. A gente conhecia bem os sete. Com dois deles eu tinha particularmente contato. Trabalhei com o Mike Anderson, chefe da parte científica da missão, durante três anos na parte de testes de integração de elementos da Estação Espacial. Ele foi meu chefe no começo. Outro que treinou comigo por dois anos e meio foi o Ilan Ramon, o primeiro astronauta israelense. Um pouquinho antes da decolagem, encontrei com ele. Eu estava trabalhando no Centro Espacial Kennedy de madrugada, fazendo um relatório e ele perguntou: “E aí, o que eu está fazendo?” Respondi que estava fazendo um relatório e perguntei se ele estava preparado para voar. Ele disse que sim e eu brinquei: “Se não estiver eu vou no seu lugar”.

O senhor acompanhou o processo de investigação do acidente?

PONTES – Fui convocado para ajudar nas investigações porque já trabalho com essa área há 17 anos quando cheguei à Nasa e por ter experiência na área de prevenção de acidentes. Participei do levantamento dos destroços e tentamos levantar várias hipóteses. Essa parte de apuração é bastante longa, mas após vários testes ficamos com a hipótese do impacto da espuma molhada contra a asa. Demonstrou-se que essa colisão era suficiente para produzir danos.

Após o acidente, como foi a reformulação da política da Nasa?

PONTES – Foram feitas várias recomendações em um relatório e a Nasa gastou US$ 1, 4 bilhão para atender a essas recomendações. Paralelamente a isso, houve várias audiências no Congresso americano com os diretores da Nasa. Mas tem algumas coisas que ainda não podem ser atendidas completamente, como fazer reparo dos ladrinhos de proteção térmica durante o vôo. Mas nada que comprometa a viagem.

O senhor também conhece os tripulantes que viajarão na Discovery. Como está o clima entre eles?

PONTES – Conheço todos eles, mas tenho mais contato com o japonês Soichi Noguchi. A preocupação deles não diz respeito à segurança, porque temos plena confiança no sistema. O que preocupa mais é ser o primeiro vôo depois de todo um processo. Ele vai ter muita importância em termos de continuidade do programa como um todo. O peso está maior devido à responsabilidade da missão.

Recentemente, foi divulgada a notícia de que o senhor viajaria para a Estação Espacial Internacional no próximo ano ou em 2007. A viagem já está acertada?

PONTES – A viagem está sendo ainda negociada entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a Russia. A AEB acredita que o ano de 2006 seja bom porque é o ano de centenário do vôo de Santos Dumont no 14 Bis. Acho ótimo, porque sou o maior fã dele e quero inclusive levar o chapéu de Santos Dumont para o espaço. Quando a data sair, quero que uma bandeira brasileira circule por todo o Brasil para que as pessoas a toquem. Quero levá-la ao espaço para que os brasileiros sintam que estão participando também.

O senhor já tem idéia do que fará no espaço?

PONTES – Ainda não tenho definida qual será a função que vão me dar. Isso significa que terei um treinamento de oito a 13 meses. Se eu for mesmo em 2006, já está na hora de eu começar a treinar. Estou assim com um pé cá e outro lá, dizendo: vem cá, vocês não vão assinar isso, não? (Risos) Mas quero levar experimentos brasileiros e também, se possível, realizar uma caminhada espacial.

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Gazeta Admininstrator
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