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Antunes Filho estréia sua montagem de

Dirigida por Antunes Filho, Antígona, de Sófocles, estréia como um bonito e impactante espetáculo nesta quinta-feira para convidados no Teatro Sesc Anchieta. São 19 atores que revivem um mito milenar – o embate entre as filhas de Édipo e o rei Creonte. Entre eles, as talentosas Juliana Galdino e Arieta Corrêa vivendo respectivamente as irmãs Antígona e Ismene. A densa luta entre liberdade e ordem, vida e morte, eros e tanatos, instinto e lei ganha ressonância em dois coros: o de cidadãos, com seis atores e um surpreendente coro de cinco Bacantes.

Como se sabe, essa tragédia gira em torno do enfrentamento entre Antígona e Creonte, autor de um édito que proíbe o sepultamento de Polinices, irmão de Antígona. Sófocles contrapõe em sua peça as leis divinas – que exigem rituais fúnebres – e as leis do Estado: Polinices bateu-se contra seu irmão Etéocles e foi considerado traidor da nação, daí o édito. Convicto de que sua decisão é correta, Creonte (Rodrigo Fregnan) torna-se surdo aos apelos para que reflita sobre seu ato impiedoso – e paga caro por não saber ouvir.

Agência Estado – A gente leva um susto ao perceber que Antígona terá apenas 50 minutos. Vendo o ensaio, percebe-se que você secou tudo. Só sobrou dor. Perda. Por que essa opção?

Antunes Filho – É a tragédia. Estamos no porão. Nas outras vezes que tentei fazer tragédia, consegui colocar no 1.º andar ou no térreo. Desta vez tento descer para o porão. Quero mexer lá dentro com as coisas dolorosas, porque o mundo está assim, então é o que tenho de fazer. Foi como eu escrevi no programa, veja Antígona no Teatro Anchieta sexta, sábado e domingo e durante a semana nos telejornais. O instinto de liberdade antecede o da sobrevivência. A gente vê isso diariamente, as pessoas se explodindo por uma causa. É terrível, mas é bonito também que os ideais possam levar a isso. Há uma espécie de neo-romantismo, bonito, o sacrifício por uma causa nobre. É isso Antígona para mim. Não quero discutir, quero esse grito sufocado. Age assim, companheiro, age pela liberdade!

Você cortou bastante o texto, não?

Sim, porque não quero ir além de um ponto. Estou preservando uma certa batida e um certo invólucro, não posso estourar. Qualquer coisa a mais, fura. A linha é tênue. Preciso respeitar a tragédia. Por outro lado, não se pode fazê-la como na Alemanha, é muito diferente. Tivemos a Guerra do Paraguai, as ditaduras latino-americanas, mas nunca tivemos um conflito como na Alemanha, a matança de 6 milhões de pessoas. Tem de ser no Brasil e tem de ser tragédia, portanto é preciso tomar muito cuidado. Sempre procuro vender uma idéia. Em Fragmentos Troianos eu falava das lutas étnicas da Europa; não consegui atingir a tragédia, fiquei no drama, sei disso; Medéia era Greenpeace, as queimadas, as fogueiras, a destruição do planeta. Dei um passo adiante, era um drama radicalizado. Com Antígona falo da liberdade. Como falar em cidadania, sem o princípio da liberdade? Liberdade exige responsabilidade, não é libertinagem. Autocrítica é fundamental. Se não tiver autocrítica e souber receber crítica fica autoritário, como o Creonte. Só o homem que critica, faz autocrítica e recebe crítica é livre e pode respeitar os outros.

É estranho, mas a gente não vê a heroína em Antígona. Em geral, a gente inveja a coragem dela no embate verbal com o rei Creonte. Em seu espetáculo, ela tem convicção, mas é alguém sob violenta pressão, que parece empurrada ao gesto extremo.

Eu lutei para não ter nenhuma ironia nela. Eu quero ela pura, limpa. Quero minha alma pura e limpa. Se ela ironizar, fico contra ela. Quero ela Joana D’Arc. Ela tem fé naquilo.

A mudança estaria aí, então. Ela não ironiza a tirania do Creonte?

Não, em nenhum momento. Ela é frontal. É uma Joana D’Arc num tribunal. Se ela ironizar fica intelectualizada. Não quero os meandros da tragédia, quero a essência.

Há humor, no texto original, na cena daquele soldado escolhido para contar a Creonte que sua ordem foi contrariada…

Na minha montagem também.

Mas você secou aquela cena…

Sim, o texto tem humor, mas não precisa ficar engraçado.

De acordo com esse seu raciocínio, quem não é livre é Creonte. Antígona é livre.

Sim, ela é livre, mas veja bem. Tem uma lei não escrita e uma lei escrita. E a platéia tem de tomar partido. Aí eu estou usando a verdadeira dialética do Brecht e não como fazem por aí: olhem, esta é a verdade! O Brecht não faz isso, ele deixa a platéia concluir, essa é a verdadeira dialética. Brecht sempre disse: “o teatro épico que escrevi é para ser mudado a toda hora”. Os atores pensam que afastamento é o quê? Para entender, é preciso ter um conhecimento histórico e social imenso, porque cada platéia é diferente. É preciso se perguntar como lidar com aquela platéia específica, com suas contradições, para que ela consiga julgar por si mesma. Eu, como diretor, não posso dizer isso é bom, isso é mau; se eu fizer isso estou perdido. Tenho que mostrar situações e o espectador concluir. A cabeça do espectador é o espetáculo. Mas geralmente vejo espetáculos didáticos do Brecht: faça isso, faça aquilo. É antidialético e antipós-moderno além de tudo. O pós-moderno cria desvios para surgirem novos pontos de vista; você não deve se deter em nada. Tem uma idéia? Foge. Tem outra idéia? Foge. Se não vai dar no modernismo, que é de cima para baixo, a ordem, e resulta em Auschwitz.

Nesse sentido, Antígona segue uma lei não escrita. Afinal, ela é livre ou não?

Agora a pergunta que eu faço, não estou respondendo, a lei não escrita não será o nosso instinto primeiro? O salmão nada contra a correnteza do rio para fazer a desova lá em cima? Quem mandou? Instinto. Puro instinto.

Cuidar dos próprios mortos? Um ritual de todos os povos. Para você, mais que religião, seria esse o instinto que a move?

É assim, tem um chip dentro das andorinhas dizendo: vai para o norte. Você não pensa para agir, age. O instinto da sobrevivência é posterior ao da liberdade. Por isso gosto da palavra. Quero trazer as pessoas para ficarem um pouco do lado do rei, afinal, seus argumentos são perfeitos, dentro da lei. Mas o seu problema é a hybris, o orgulho. Por isso tem a loucura divina no espetáculo, os homens ficam loucos, começam a bater palmas sem querer.

Associamos Baco a um deus da celebração…

Contestador?

Não exatamente, um deus sensual, de corpo livre.

Pode ser homossexual também.

Claro. Mas na sua encenação, o Baco é quase um executivo, embora todo de branco, tem aquele sapato bem comportado. Por que isso, um Baco tão triste?

Ele é o diretor da cena. Ele dirige. Ele se coloca acima. Ele sabe que é uma história repetida ao longo de milênios, um mito relembrado. Tanto que fala algumas falas dos atores. Ele fala junto. Ele tá repetindo.

Mas ainda assim ele poderia ser o Baco tradicional.

Mas se fosse ele cairia na sua própria arapuca.

Ele tem que ser racional porque está representando?

Hãhããã! Claro. Ele está representando o tempo todo. Foi aí que o Sófocles bebeu, nessa representação. Não cortei nenhuma metáfora, nenhuma coisa significativa. Cortei os diálogos que se esticavam demais, hoje tem cinema, televisão, etc. e tal. Também tem 50 minutos porque estamos falando de outra maneira, falando flauta. Se fosse tudo (fala com voz presa, engasgada) tó tó tó, levaria 1h15.

Eles falam também muito rápido, não? Ou foi impressão minha? Ensaio?

Não, eles falam flauta. É que você está acostumada assim: (com voz impostada) Óh, meu rei! Nesses casos, de ator que fala na projeção, a pausa não é pausa, e parada para respiração. Na projeção tem que respirar em cada palavra. Na ressonância eu falo uma porção de tempo sem respirar. Tirei tudo o que é gordura de ar.

A montagem tem também dois coros? O dos cidadãos e outro, de mulheres. Por que?

São as Bacantes. Essas mulheres estão sempre se oferecendo, trazem o aspecto de luxuria. Mas eu uso em outros momentos, para contrabalançar com os homens, o espetáculo fica mais bonito.

Há momentos em que as Bacantes assumem o papel de carpideiras.

Tem tudo. Carpideiras de um lado, ataque luxuriante de outro. Acho bonito, acho que enriqueceu a visualização da Antígona. Mas vou fazer uma confissão. Acho mais importante meu trabalho de ensinar para a molecada – as aulas, a expressão da voz, do corpo – do que qualquer espetáculo que eu faça. Porque fica. É cultura. O espetáculo fica só no teatro. As pessoas pensam que estou a fim de criar um método para deixar. Bobagem, porque tudo se esvai, tudo é vento. De coração. No futuro, esses atores serão professores, terão alunos, fundarão companhias teatrais. Eles estão levando a técnica para expressar.

Outro dia vim aqui falar com você, e o grupo estava reunido vendo no telão do filme “Encouraçado Potemkin”. Como travar a batalha contra a banalidade que parece tudo contaminar?

O Pignatari falou algo que concordo: temos que criar guetos, claustros, pequenas células de estudos, como na Idade Média, para esperar passar essa época de consumismo idiota, estúpido, imbecil. A imprensa teria um papel importante e muita responsabilidade nesse momento, mas o jornal trabalha com o consumo, de certa forma fica refém. Atualmente os suplementos culturais trazem páginas dedicadas ao consumo de vinho, à gastronomia, desfiles de moda! Ai, eu fico louco quando vejo desfile de moda ocupar páginas de cadernos de cultura.

Você escreveu, num texto sobre a peça, que “o consumista, já que não entende, não se insere no espírito das obras, apenas se faz dono, proprietário das artes. Como é um alienado, fetichista, quando pensamos que pode tomar uma atitude reflexiva, crítica, ou de profundo deleite, apenas torce, bate palmas, enaltece, imaginando-se senhor delas.” Está difícil a relação com o público?

Aquela alienação positiva que fala Engels – você entra na obra, tem uma alienação positiva e se abastece com isso – hoje não tem mais. Só alienação fetichista. Se não consigo entrar na obra, então eu compro. Não posso compreender esse Picasso, eu compro, pronto eu tenho um Picasso. Beethoven, Mozart em celular, é só consumo, só mercantilismo, não tem fruição. No meu caso, tenho um público. Existe o público desse gueto. Mas é uma nova sensibilidade, de claustro mesmo. Observe, o grande público detesta os filmes mais legais, como esse em cartaz do Manoel de Oliveira… Ah, não vamos falar de cinema. Eu adoro cinema, se começo a falar não paro.

Então é preciso esperar passar esse tempo. Por que passa, não?

Claro, é circular. Isso vai cair tudo. Tem que cair. É lei da natureza, é ciclo, quatro estações, é inescapável. É inescapável a representação de Antígona. Sou pós-modernista, quero ver de viés. Estou fazendo um revisão crítica da obra do nosso amigo Sófocles, aquilo que o pós-modernismo faz. É preciso reviver sempre a história, porque é exemplar. Conta de novo, conta de novo, e de novo, através de séculos. A gente conta essa história para ver se o homem se modifica. A cada geração tem de repetir. É conto de crianças para adultos.

Antígona – De Sófocles. Adapt. e dir. Antunes Filho. 50 min. 14 anos. Teatro Sesc Anchieta (320 lug.). Rua Dr. Vila Nova, 245 3234-3000. Sexta e sáb., 21h; dom., 19h. R$ 20. Até 31/7. Estréia nesta quinta-feira para convidados.

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Gazeta Admininstrator
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