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Amor e política no thriller de Fernando Meirelles

O produtor Simon Channing Williams deu-se conta de que não chamara o homem certo para a função quando escolheu Mike Newell para dirigir O Jardineiro Fiel, e foi quando Fernando Meirelles entrou em cena. Williams, que produziu Vera Drake, entre outros filmes de Mike Leigh, ficou impressionado com Cidade de Deus e achou que Meirelles poderia fazer a ponte entre a exclusão social no Brasil e a pobreza na África.

Mas havia um problema – Ralph Fiennes estava contratado para fazer o filme sob a direção de Newell e tinha de aprovar o novo diretor. Fiennes não fez objeções a Meirelles e ainda emendou O Jardineiro Fiel com Harry Potter e o Cálice de Fogo, no papel do vilão – desta vez, sob a direção de Mike Newell.

Meirelles e Fiennes estiveram juntos no lançamento de O Jardineiro Fiel, no recente Festival do Rio. Subiram ao palco do Odeon BR. Meirelles contou que Fiennes lhe pediu para estar presente na estréia do filme no Brasil. Agradeceu ao ator por sua entrega, sua paixão.

Fiennes falou em português – “Boa-noite” e “Muito obrigado”. Acrescentou, em inglês, que Meirelles é o melhor diretor com quem trabalhou. Não representa pouco. Fiennes trabalhou com Steven Spielberg em A Lista de Schindler e com Anthony Minghella em O Paciente Inglês (e ambos ganharam o Oscar).

Quando foi chamado para dirigir o filme adaptado do livro de John Le Carré, Meirelles já encontrou um roteiro pronto – escrito por Jeffrey Caine. Imediatamente, ele foi ao livro e achou que era melhor.

Meirelles confessa, na entrevista realizada numa suíte do Hotel Le Meridien, em Copacabana – “Nunca havia lido O Jardineiro Fiel nem qualquer outro livro de John Le Carré. Em princípio, não gosto de narrativas policiais nem de espionagem.” Mas havia algo que o atraía (no roteiro e no livro) e não era bem a denúncia da pobreza africana.

Era o ataque à indústria farmacêutica, a forma como os grandes laboratórios trabalham, controlando os governos que, por sua vez, nos controlam – a nós, cidadãos. Meirelles cita o que considera uma contradição. “A indústria farmacêutica cria medicamentos que podem salvar vidas, mas, para fazê-los, testa sua eficiência em populações carentes que não passam de cobaias. E, depois, joga o preço desses remédios lá em cima, o que faz com que só possam ser consumidos por uma parcela ínfima da população mundial.” Na história de O Jardineiro Fiel, Justin, o diplomata interpretado por Ralph Fiennes (pronuncia-se Reif Fáines), perde a mulher, Tessa (Rachel Weisz), logo no começo. Ela morre num atentado. Há suspeita de que tivesse um envolvimento com o motorista que a acompanhava.

Justin começa a investigar o caso. Descobre que Tessa vinha trabalhando com uma ONG na denúncia da indústria de medicamentos no Quênia. A mulher, que ele, no fundo, tinha medo de que lhe fosse infiel, na verdade o amava e era, não apenas fiel, como protetora do marido. Enquanto ela se arriscava, ele cultivava seu jardim. Daí o sentimento de perda que acompanha Justin, a sua angústia que o espectador compartilha.

Pouco mais de um mês após dar o sim a Simon Channing Williams, Meirelles já estava na África, procurando locações. O livro está proibido no Quênia, onde se passa a ação. O novo governo, que substitui o anterior, corrupto, que Le Carré coloca no livro, percebeu que o filme seria feito de qualquer maneira. Seria melhor fazê-lo no Quênia – confirmaria a idéia de uma mudança política, a ausência de compromisso com o governo anterior e também significaria o aporte de capital, a criação de empregos (mesmo temporários) e um impulso à atividade cinematográfica local.

Meirelles conta qual foi seu maior problema. “O Simon me deu condições muito boas de produção, ideais para quem, como eu, havia produzido meus filmes anteriores e tinha de conciliar as exigências da criação com a administração das verbas. Mas o roteiro não me satisfazia. Durante toda a filmagem, o roteiro foi sempre reescrito. Trabalhava sob pressão. Primeiro, achava o roteiro prolixo e o enxuguei, com a ajuda de Bráulio Mantovani (roteirista de Cidade de Deus), que tem um crédito de colaborador”. Ao mesmo tempo que simplificava o roteiro, Meirelles tentava incluir personagens que achava importantes no filme (por alguma fala, alguma situação). E, mesmo na pós-produção, ele ainda trocava falas, que tinham de ser alteradas na montagem. Pode não ter saído o filme ideal, que todo diretor tem na cabeça, mas saiu muito forte, intenso. Mais do que um thriller de ação ou espionagem, Meirelles define O Jardineiro Fiel como um thriller existencial.

“É uma emocionante história de amor e de política.” O elenco foi decisivo. Ralph Fiennes já estava no projeto quando Meirelles chegou. “Achei que ia dirigir um astro, mas encontrei um sujeito afável e com a mesma disponibilidade para aprender e trabalhar dos garotos de Cidade de Deus.” Tessa, no início, era mais jovem, mas Meirelles achou que uma mulher mais madura tornaria mais convincente a luta da personagem. Foi a chance de Rachel Weisz.

Ela tem química com Ralph Fiennes. E é corajosa. “Rachel só fez objeções, ao ler o roteiro, à cena em que aparece nua na banheira. Garanti a ela que filmaria de forma discreta e lhe enviaria um cassete, para que ela aprovasse. Rachel foi se envolvendo tanto com a personagem que, na hora da filmagem, me disse – “Faça como quiser. Não sou mais eu, é a Tessa”. “Rachel é maravilhosa´, define o diretor. A curiosidade do repórter deve ser a de todos os espectadores que assistem ao filme – e aquela gravidez? ´É uma prótese muito bem feita´, explica Meirelles. A mágica foi a maquiadora Christine Blundell, que ganhou o Bafta, o Oscar inglês, por Topsy-Turvy – O Espetáculo, de Mike Leigh. Todo o processo de O Jardineiro Fiel foi uma grande experiência para Meirelles, que se surpreendeu com a acolhida ao filme.

“Achei que estava fazendo um filme comercial de qualidade, sobre coisas que me interessam dizer, mas a crítica o colocou num outro patamar. Sinceramente, fiquei surpreso quando nos convidaram para Veneza.” O Jardineiro integrou a mostra competitiva do Lido. Ganhou o Prêmio da Juventude, dado pelo público jovem, o mesmo que Diários de Motocicleta, de Walter Salles, ganhou no ano passado, em Cannes. Meirelles volta agora ao Brasil para dois projetos.

Um deles é Intolerância 2000, que terá seis histórias rodadas em sete países e que pega carona no clássico de David W. Griffith para falar de globalização. O outro será um filme pequeno, com um roteirista brasileiro, sobre o qual ele ainda não quer falar.

O bom de ser considerado um nome importante do cinema mundial, após o impacto de Cidade de Deus e da candidatura para o Oscar de direção por aquele filme, é que Meirelles sabe que acabaram suas dores de cabeça por financiamento.

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