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Rosana Brasil: Você sabe perdoar?

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Perdão é a ação consciente de reconciliar com alguém que causou dor física ou emocional. Um filho busca reconciliação com a mãe quando reconhece que quebrou o vaso de porcelana preferido, e pede desculpas perguntando o que pode ser feito para reparar o acontecido. O vizinho busca reconciliação quando inadvertidamente o seu coelho pula a cerca e come parte das hortaliças na horta do vizinho, oferecendo-se para ajudar cuidar da horta. O esposo que toma o partido da irmã em detrimento da esposa e dos filhos, busca reconciliação com a esposa ao reconhecer que seu ato de lealdade para com a irmã foi também uma quebra no acordo de ser leal para com a sua família, e pede desculpas ao adotar uma atitude permanente de atenção aos interesses da esposa e dos filhos.

“Almir do Picolé”, hoje com 35 anos, teve uma infância difícil. Foi abandonado pelos pais, morou na rua e depois viveu num orfanato no Sergipe, nordeste do Brasil, de onde saiu em 1989. A partir daí, ele foi morar numa vila chamada “Vila da Miséria”. Hoje, Almir do Picolé suporta uma creche para 50 crianças. Perdão é parte da atitude do Almir do Picolé. Almir não questiona se deve ou não ajudar a quem precisa. Ele simplesmente ajuda. A atitude generosa de Almir do Picolé é realmente uma atitude permanente de perdão a um sistema social que o falhou durante a infância.

“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mateus 6:12)

Você e eu talvez não tenhamos tido uma infância difícil, porém, temos diferentes feridas para sarar através do perdão. Perdoar aqueles que nos fizeram sofrer, um amigo que fez comentários inadequados; um esposo que toma o partido da irmã ou da mãe em detrimento da esposa; um chefe que dá preferência a um certo empregado, são exemplos de situações da qual alguém saiu machucado porque palavras foram ditas ou ações foram tomadas sem levar em consideração o bem-estar do outro. Clarice Lispector diz: “Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado”. Assim, quando escolhemos perdoar os erros e as decepções, escolhemos também sarar as feridas causadas pelas decepções sofridas no passado.

Vejamos como perdoamos:

  1. Quando alguém me magoa:
    1. Paro de falar com a pessoa até que ela peça desculpas.
    2. Fico muito triste, porém, escolho ignorar o acontecido e sigo em frente.
    3. Confronto a pessoa imediatamente.
  1. Se alguém me magoa e se recusa a pedir desculpas:
    1. Fico com raiva e evito contato com a pessoa.
    2. Ignoro, não faço caso e deixo a raiva passar.
    3. Confronto a pessoa e digo como estou me sentindo.
  1. Quando lembro do acontecido e da dor que senti:
    1. Relembro a pessoa da dor que senti.
    2. Procuro esquecer.
    3. Fico com raiva, porém, procuro esquecer pensando em outras coisas.
  1. Quando eu sou a causadora da dor:
    1. Procuro explicar minhas ações.
    2. Me sinto mal, mais não falo nada.
    3. Procuro a pessoa e peço desculpas pela dor provocada.
  1. Quando alguém me confronta com algo que eu tenha feito de errado:
    1. Procuro me defender e acuso alguém.
    2. Mudo de assunto.
    3. Assumo a responsabilidade e peço desculpas.

Revendo as suas respostas, a que conclusão chegou?

  1. Você reage com raiva e procura se defender quando alguém a confronta.
  2. Você evita conflitos.
  3. Você busca o entendimento e a resolução dos problemas a medida que eles vão surgindo.

Bela Adormecida ficou furiosa de raiva quando descobriu que seu esposo, o “Príncipe Enganado”, estava namorando pela internet. “Eu fiquei com muita raiva, a princípio eu pensei que fosse minha imaginação. Reli os e-mail trocados entre os dois várias vezes, procurando algo que confirmasse que fosse um engano. Eu não podia acreditar que o meu melhor amigo pudesse causar tamanha decepção. Eu não sabia como discernir entre mentiras e verdades. Tudo ficou muito confuso. Algo quebrou, talvez tenha sido a minha ilusão de ser amada verdadeiramente, e eu não sabia como consertar. Eu me sentia atordoada, quebrada e paralisada pela ideia de ser inútil e sem importância”.

A atitude do Príncipe Enganado foi uma quebra no acordo intrínseco de dividir os momentos importantes, de proteger um ao outro, de ser generoso um com o outro, de caminhar juntos testemunhando o progresso um do outro. O Príncipe Enganado se esqueceu de ser leal à Bela Adormecida.

Sentimentos de raiva em situações como esta são perfeitamente normais. Quando somos enganados, algo dentro de nós, o nosso compasso do que é certo ou errado é acionado, e imediatamente começamos a procurar uma maneira de obter justiça. Neste caso, para que haja perdão, a balança da justiça necessita ser equilibrada. Primeiro, pensamos no ocorrido; depois pensamos em varias hipóteses do que é possível ser feito e idealizamos o resultado desejado; a seguir exploramos a probabilidade de alcançarmos o desejado; finalmente decidimos o que fazer para restabelecer o equilíbrio emocional. É neste ponto que buscamos conscientemente perdoar ou a pedir perdão.

A tenção entre perdoar aqueles que nos decepcionaram de alguma forma está na forma como o pedido de perdão é feito. Quando o pedido de perdão é sincero, a tensão diminui; quando o pedido é insincero, a tensão aumenta e a angústia continua. “Eu não estava namorando, foi sua imaginação, eu só estava conversando, afinal, você não tem mais tempo para conversar”. Bela Adormecida gostaria de perdoar o Príncipe Enganado, no entanto os pedidos de desculpa soavam insinceros e dissimulados, aumentando ainda mais a angústia de Bela Adormecida.

Quando a pessoa que causou a decepção é capaz de expressar sinceramente que está arrependido e deseja reparar a situação, o processo de perdão se inicia, possibilitando que ambos se beneficiem desta experiência. “Você tem razão, eu estava conversando sobre assuntos inapropriados com estranhos na internet. Peço desculpas por ter causado decepção. Que posso fazer para reparar a situação?”.

Bela Adormecida irá beneficiar ao perdoar, e Príncipe Enganado irá beneficiar-se ao buscar reconciliação através de um sincero pedido de desculpa. Com isto, o sofrimento de ambos não será em vão. Destarte, ambos escolhem deixar a desilusão e a dor para trás. Assim, Bela Adormecida e Príncipe Enganado escolhem amar um ao outro autenticamente.

Nós somos livres para amar, e para odiar. Por causa desta liberdade, algumas vezes tomamos decisões precipitadas e acabamos decepcionando aqueles que nos rodeiam. No entanto, também somos livres para perdoar e para pedir perdão pelos erros e pelas decepções do passado. Mais importante é sermos livres para viver autenticamente.

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Rosana Brasil
Rosana Brasil
Rosana Brasil é terapeuta de Matrimônio e Família, formada pela Universidade Católica St. Thomas, em Miami. Trabalha ajudando indivíduos e famílias a reconstruírem suas histórias de vida de maneira positiva e criativa.
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