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Uma outra esquerda

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Foto: Beto Nociti-Flickr

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O fracasso da velha esquerda representada pelos partidos recentemente no poder não eliminou a necessidade de um movimento com as três características que definem esquerda: descontentamento com o status quo, sonho alternativo para o mundo e convicção de que este mundo melhor só será construído pela política. Ao fracassar, a esquerda tradicional demonstrou seus erros e reafirmou que é preciso uma outra esquerda para uma nova proposta de outro Brasil.

Desde que chegaram ao poder, PT e demais partidos de esquerda ao seu redor assumiram que seu governo havia realizado a mudança e construído a utopia, por bolsas e cotas, um correto gesto social, mas esquecendo as reformas necessárias da estrutura da sociedade, para que os filhos de todos os trabalhadores tenham a mesma chance de todos os filhos dos patrões.

Esta nova esquerda precisa entender que no mundo global e com suas transformações tecnológicas, o debate ideológico não está mais na economia. O papel da economia não é ser justa, é ser eficiente e produzir o necessário para atender aos interesses da sociedade, na busca de justiça e sustentabilidade, a ser conseguido pela política. No lugar do reacionarismo de barrar as revoluções para proteger segmentos sociais, a nova esquerda precisa fazer as revoluções necessárias para transformar a sociedade aproveitando as vantagens do avanço técnico. Embora deva objetivar uma sociedade utópica possível, não cabe mais a ideia de uma engenharia social para construir utopias definidas pela vontade de intelectuais e políticos, como se acreditou ao longo do século XX. A utopia não é uma edificação social, é um processo em marcha democraticamente.

A democracia na política, a ética na gestão pública, a liberdade de expressão são compromissos fundamentais e inegociáveis na Nova esquerda. Diferentemente do populismo, da arrogância e do aparelhamento, para servir ao público é preciso gerenciar o Estado com competência e respeito ao mérito de seus servidores – a esquerda tem de ser meritocrática, ou cai no comportamento aristocrático de beneficiar escolhidos independentemente do seu desempenho.

Estado não é sinônimo de Público. Precisa ser administrado com responsabilidade, entender que os equilíbrios fiscal e ecológico exigem austeridade no lugar do desperdício que viciou a esquerda, levando à apropriação privada pelo Estado por partidos e corporações, servindo mais aos interesses de políticos e líderes sindicais do que aos interesses da população. Terminaram defendendo privilégios adquiridos, impossíveis de serem distribuídos às massas.

A robótica e a informática rompem as relações entre os indivíduos e o Estado, exigindo reformas na legislação do Trabalho. O aumento na esperança de vida e a redução na taxa de natalidade exigem reformas no sistema previdenciário. Os interesses do povo exigem a estabilidade monetária, o que requer forte compromisso com a responsabilidade fiscal. A austeridade, diferentemente do consumismo burguês, deve ser uma característica da esquerda. Só ela é capaz de manter os equilíbrios fiscal e financeiro e reduzir a brecha da desigualdade social.

Comprometida com a liberdade, a nova esquerda deve tolerar a desigualdade no consumo e na renda do indivíduo, desde que assegurada a igualdade plena à educação e à saúde de qualidade. A desigualdade deve ficar limitada entre um Piso Social – ninguém deixado abaixo do mínimo necessário à sobrevivência digna – e um Teto Ecológico – ninguém podendo provocar desequilíbrio ecológico por meio do consumo. Entre o Piso Social e o Teto Ecológico, a educação de qualidade igual para todos serve como uma legítima Escada Social. Cada pessoa com a mesma chance para usar o seu talento, sua persistência e seu esforço para atingir os níveis superiores de renda e de consumo. O slogan da nova esquerda não é mais “a fábrica nas mãos do Estado a serviço do trabalhador”, deve ser “o filho do trabalhador na mesma escola do filho do patrão”.

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Cristovam Buarque
Cristovam Buarque
Professor emérito da UnB e senador pelo PDT-DF. Tem como principal bandeira parlamentar a educação. Formado Engenharia Mecânica e doutor em Economia. Escreveu mais de 20 livros.
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